Por Gustavo Martins-Coelho

A Língua Portuguesa faz parte do nosso património cultural e deve ser defendida, sob pena de nos extinguirmos como povo!

1. Antes de mais, acho importante esclarecer conceitos: estrangeirismo e empréstimo têm significados linguísticos diferentes, embora próximos, o que leva a que sejam muitas vezes utilizados indistintamente. Para mais informações sobre a distinção entre os significados de ambos os termos, sugiro a consulta da Enciclopéda Luso-Brasileira de Cultura, vol. 7, pp. 1570 e 1571. Faço também notar, a título de curiosidade, que a Wikipédia contém uma definição errada de tal distinção [1]. Dado que está o esclarecimento, vou então desmontar alguns aspectos da utilização de empréstimos na Língua Portuguesa, esperando que o leitor não me julgue erroneamente.

2. Ao contrário do que dirão alguns puristas, a utilização de estrangeirismos é, além de inevitável, necessária e sobretudo enriquecedora em qualquer língua viva, visto que se destina a suprir uma necessidade significativa dessa língua, isto é, a definir um conceito para o qual a língua em causa não possui qualquer termo, tendo, pois, necessidade de recorrer a outras línguas para adquirir tal significante. Neste sentido, a utilização, por exemplo, do anglicismo «blog» enquadra-se perfeitamente na definição de estrangeirismo útil e necessário, por não existir em Português nenhuma palavra que signifique «página web em que as entradas são escritas por ordem cronológica e geralmente apresentadas por ordem anti-cronológica». Outros empréstimos há em Português, plenamente consagrados pelo uso e dos quais o falante comum nem sequer tem consciência de o serem. Mais estrangeirismos surgirão diariamente no futuro e tal será positivo para a nossa língua.

3. Não defendo a utilização cega do Português mesmo quando este não tem capacidade de resposta às necessidades vocabulares dos emissores verbais apenas porque é a nossa língua, mas sinto-me desconfortável ao ver esses mesmo emissores recorrendo a línguas estrangeiras (leia-se ao Inglês) para definir conceitos que existem em Português. Infelizmente, é isto que cada vez mais se passa: palavras portuguesas caem em desuso para serem substituídas por palavras de origem inglesa; os motivos e os contextos são vários e não vale a pena estar aqui a abordá-los a todos (a este propósito, permito-me sugerir a leitura da crónica de Maria Lúcia Lepecki na «Super Interessante» n.º 110, de Junho de 2007). Embora concorde que uma língua serve para comunicar, não me parece linear a ilação de que a utilização exagerada de empréstimos e de estrangeirismos na Língua Portuguesa facilite essa comunicação.

4. O Português é uma língua viva e, como tal, novas palavras surgem constantemente, enquanto outras caem em desuso. Faz parte desta evolução natural da língua a utilização, quando necessário, de palavras estrangeiras, cuja grafia considero, salvo melhor opinião de linguista experiente, dever ser aportuguesada logo que possível, sendo assim os empréstimos absorvidos como estrangeirismos e passando a fazer parte do vocabulário corrente em Português. Na adopção de estrangeirismos, devem ser levadas em conta as regras ortográficas da língua que os adopta. É um processo lento e nem sempre consensual (que o diga a sandwich, que em Português pode ser sande, sandes ou sanduíche), mas tão inevitável como a adopção inicial do estrangeirismo. Depreende-se, pois, que «blog» não será totalmente correcto, devendo preferir-se a grafia «blogue», por se encontrar de acordo com as normas morfológicas portuguesas. Dito isto, depreende-se facilmente que, a partir do radical «blog-», o verbo «blogar» se torna também legítimo, bem como o termo «bloguista» ou «blogueiro», para significar, respectivamente, o acto de escrever num blogue e a pessoa que tem ou escreve num blogue.

5. No entanto, não é este tipo de estrangeirismos saudável que me preocupa e que procuro combater. Os estrangeirismos contra os quais me insurjo são aqueles que resultam da ignorância ou preguiça do falante, para quem é mais fácil recorrer a uma palavra estrangeira do que procurar na sua língua materna um significado que já existe. Neste caso, a utilização dum estrangeirismo é supérflua e por isso condenável, representando apenas provincianismo da parte de quem o adopta.

6. Também a título de exemplo, já que estamos na blogosfera, a palavra «postar» existe em Português e tem outro significado que não o dado no contexto de postar num blogue. Com alguma tolerância, poderíamos assumir o significado «colocar», mas, mesmo assim, trata-se dum exercício inútil, porquanto o verbo «to post» tem mais do que uma tradução possível em Português, sendo «afixar» ou «publicar» termos que definem perfeitamente o acto de disponibilizar um texto através dum blogue e por isso mais adequados do que «postar», que nos obrigaria a uma certa ginástica semântica. Portanto, por que havemos de destruir uma palavra que existe e tem o seu significado e a sua utilização linguística precisos para criar outra que irá substituir uma que também existe e significa o que queremos significar com a nova palavra que pretendemos criar? A resposta é simples: postar num blogue é, em bom Português, um erro e como tal deve ser tratado — corrigido.

7. Uma outra palavra frequente na blogosfera, pelo menos no momento da criação dum blogue, é «template», que tem também um significado em Português: «escantilhão». Mais uma vez, a falta de conhecimento da língua e a preguiça de ir à estante buscar um dicionário de Inglês-Português levam-nos a utilizar um estrangeirismo em detrimento duma palavra portuguesa de pleno direito. A este propósito, permito-me recordar um professor de Português que tive no sexto ano e que disse uma vez numa aula, a respeito duma composição elaborada por um colega acerca dos «Metallica», que, não surgindo o nome entre aspas em nenhuma parte do texto, fora tratado pelo professor como uma palavra comum que, por não existir em Português, fizera o autor da composição perder pontos preciosos na avaliação da mesma, por ter cometido um erro repetidamente. «Template» e muitos outros empréstimos também não existem em Português e não devem ser admitidos como estrangeirismos (por não acrescentarem nada à língua, como já referi) e, por não existirem, devem levar quem os use a incorrer na mesma penalização a que o meu colega foi sujeito no sexto ano. Certos defendem a utilização de «template» e outros empréstimos como termos técnicos, que merecem ser internacionalizados. Tal argumento não é, de todo, aceitável, por dois motivos. Em primeiro lugar, ainda que tenha começado por ser um termo meramente técnico, «template» ultrapassou essa esfera há muito tempo, a partir do momento em que o utilizador comum, leigo na matéria, começou a conhecê-lo e a utilizá-lo. Cai, pois, por terra, a defesa da internacionalização de «template» por ser um termo técnico, porque não o é. Em segundo lugar, mesmo que quiséssemos considerá-lo ainda um termo técnico, não é esse motivo suficiente para o tornar inglês. Todas as profissões possuem a sua própria gíria (curiosamente, até temos uma palavra em Português para definir «termo técnico») e não me consta que um médico, um jurista ou um economista falem entre si em Inglês para serem internacionais. A gíria profissional faz parte do Português e como portuguesa deve ser tratada.

8. Vi uma vez levantar-se a possibilidade da criação duma língua europeia, sugestão que me parece interessante, mas que esbarra num problema: a língua faz parte da cultura dum povo e a Europa é um caldo onde vivem e convivem culturas muito diferentes entre si, reflectindo essas diferenças nas diferentes línguas faladas no seu território. Assim, é impossível unificar a língua, da mesma forma que é impossível a aculturação de todos os povos europeus para os uniformizar. Temos valores conjuntos, mas também temos muitos que nos diferenciam; basta ir a Espanha para ver isso. Uma língua para o espaço europeu faz sentido apenas como língua internacional que nos permita poupar uns milhões em intépretes e tradução simultânea. Eu falo sete línguas e isso faz-me apenas ter mais amor pela minha língua materna, que é e sempre será o Português!

9. Sendo cada falante detentor do seu idiolecto e, por isso, utilizando-o de forma diferente dos restantes, não é, no entanto, seu direito de utilizar a língua a seu bel-prazer, existindo regras comuns de utilização que têm de ser respeitadas, sob pena de a comunicação se tornar impossível, dado cada utilizador atribuir os seus significados próprios, diferentes de todos os restantes.

10. A linguagem utilizada nos serviços de mensagens curtas (telemóveis, Facebook, Skype, etc.) não é essencialmente nociva. Pelo contrário, é uma linguagem que permite diminuir o número de caracteres utilizados numa mensagem escrita e assim incluir mais informação ao mesmo preço (conseguindo dizer numa só mensagem o que doutra forma só caberia em duas ou mais, com o consequente pagamento do serviço) e permite trocar mensagens através dum programa de mensagens instantâneas de forma mais rápida do que escrevendo palavras completas. O uso de abreviaturas está há muito tempo consagrado para este fim; a linguagem deste tipo pode ser comparada à estenografia, em termos de utilidade. Contudo, tal linguagem torna-se nociva quando ultrapassa os limites da utilização razoável, isto é, quando surge em contextos onde não deve surgir, seja na escola, num texto que se quer minimamente formal ou em qualquer outra situação em que seja de esperar o uso correcto do Português, e quando se passa da mera utilização vantajosa de abreviaturas para a introdução de vocábulos que estão puramente mal escritos e que não acrescentam nada em termos de rapidez de escrita. Termino este ponto citando a melhor frase que já li sobre o assunto, já lá vão uns anos, e que acho que resume perfeitamente a ideia que tento transmitir:

Posso não ter muita idade para dizer isto (12 anos), mas é de pequeno que se começa e eu um dia estive a falar com uma amiga minha e concordámos as duas que deveríamos passar a escrever no MSN correctamente, porque, se nós escrevermos como nos apetece, um dia já ninguém saberá escrever.

11. Uso palavras caras e não tenho vergonha de usá-las. A língua não se resume ao vocabulário corriqueiro do nosso dia-a-dia; tem sentidos escondidos, nuances (ora aqui está um empréstimo) e coloridos que devemos explorar diariamente, sob pena de vermos o nosso leque vocabular reduzido de dia para dia. Como dizia Maria Lúcia Lepecki em texto cuja leitura já sugeri, o espírito alimenta-se e exercita-se: alimenta-se lendo e exercita-se escrevendo e fazendo um esforço por escrever cada vez melhor. Pelo mesmo motivo, faço textos compridos. Recuso a tendência simplista de que o imediato e o rápido devem ser idolatrados. Sei esperar e sei fazer as coisas com calma e com alma. Quando escrevo um texto, cada palavra está lá porque eu quero que ela esteja e porque sinto que é lá que ela deve estar.

12. Reconheço (e é talvez a questão que mais me preocupa) o papel pedagógico que a comunicação social, os portais na Internet, a blogosfera e todas as empresas que comunicam com o público português desempenham. Neste sentido, enquanto as entidades com uma imagem respeitável no mercado contribuirem para a difusão de linguagem que não seja a mais correcta, dificilmente a minha voz, ou mesmo a da escola, conseguirá fazer-se ouvir.

13. Não tenho quaisquer objectivos políticos ou económicos com a reedição, com pequenas alterações, desta crónica de 2007, tal como não tive à data da sua publicação original. Pretendo apenas suscitar o debate e abalar  as consciências e as convicções. Não quero forçar ninguém a gostar do Português, quero apenas fazer reflectir e mudar alguma coisa por dentro, não apenas por fora. A pátria de Fernando Pessoa é também a nossa pátria.

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