Por Gustavo Martins-Coelho

Dizer «pois» é uma óptima forma de matar uma conversa. Quando uma pessoa diz qualquer coisa a outra e recebe «pois» como resposta, tem alguma dificuldade em prosseguir. Na generalidade. Há pessoas que não são assim; conseguem manter viva a sua conversa independentemente da quantidade de «pois» que recebam em retorno. Creio que o termo para definir esse tipo de pessoas é «chato». Mas partamos do princípio que estamos a falar apenas de pessoas normais.

Palavras leva-as o vento, excepto se forem escritas. Surpreende-me que, numa sociedade que preza a efemeridade do descartável, haja tanta gente a gostar de tatuagens.

Estou aborrecido, mas fervilho de imaginação! Quando eu tenho, tu não tens; quando tu tens, sou eu quem não tem. Andamos sempre desencontrados! Às vezes até digo umas coisas de jeito, mas o meu arsenal de temas de conversa é limitado; ao fim dalgum tempo, começo a repetir-me. Às vezes, gostava de ter ideias mirabolantes, sair um bocado da monotonia. Se eu contasse tudo detalhadamente, perdia o interesse e, sobretudo, o encanto que têm as coisas misteriosas e o mistério das coisas encantadas.

Uma das minhas maiores mágoas é não ter a sensibilidade dum poeta. Não ser um grande sofredor, como dizia o Paião. Não é por falta de sofrimento. Nem é por falta de saber fingir a dor que deveras sinto. Mas só sei fingir que sofro em prosa. Quando tento escrever em verso, o mais elaborado que consigo é rimar romã com maçã. Mesmo que, por dentro de mim, todo eu vibre com o som de cantos que alto se alevantam. Soubesse eu produzir sonetos como o Camões (já ficaria feliz com o Bocage), e cantar-te-ia noite e dia!

Mas a cada um cabe saber aceitar as suas limitações, e a mim calhou-me na roda da fortuna a desdita de sentir e não ter engenho nem arte suficientes para conseguir encontrar as palavras do tamanho certo em que caiba o muito que sinto. Calo-me, pois, e comigo calo o mundo que vive em mim. Dizer tudo sem dizer nada.

Desejava saber citar Séneca e Platão com desenvoltura. Já me daria por satisfeito com Voltaire e Baudelaire. Mas não! As citações mais elevadas a que posso almejar são canções dos Delfins e livros infantis (o Obélix foi um grande filósofo). Ou séries televisivas:

— There are three things you can never have enough of in life: chocolate, friends and the theatre — disse a saudosa Jessica Fletcher.

Ao menos, ainda não cheguei ao infortúnio de citar moradores da «Casa dos Segredos». Enfim, mantenho uma certa mediania cinzenta de citações. Preferia ser estranho do que medianamente cinzento.

Mesmo em prosa, os mais sublimes pedaços de literatura que escrevi brotaram da minha pena por sorte duma mulher. Esse ser tão fascinante quanto incompreensível nasce outro em mim, capaz de entrelaçar palavras brutais de sonho.

Talvez fascinante porque incompreensível. As coisas incompreensíveis têm sempre um fascínio embutido em curiosidade que as fáceis de compreender não têm. Dão vontade assustada de explorar como a um bosque denso.

A vida é um arco-íris que perde o encanto quando reduzido à explicação física do fenómeno ilusivo óptico. Tal como a política, também a vida é feita de promessas não cumpridas.

Há dois momentos altos nas tardes das minhas segundas-feiras. Um é a saída da estação de Espinho, em direcção ao Porto. O outro é a travessia do Douro, a caminho de São Bento. Das Devesas a General Torres, também há uns segundos extáticos. Mas nem assim sou capaz de alinhavar meia dúzia de milhafres feridos na asa que rimem.

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