Por Gustavo Martins-Coelho

Há uns anos, escrevi uma pequena provocação à classe profissional dos enfermeiros, texto que se tornou o mais comentado do meu antigo blogue, «O Muro das Lamentações» (com comentários muito exasperados, diga-se de passagem, por parte dalguns leitores), o que muito me surpreendeu.

Acabei por encontrar a explicação para essa anomalia estatística ao fazer uma pesquisa no Google, que me mostrou esse textinho em oitavo lugar na lista de resultados duma pesquisa não relacionada de todo com o meu blogue, mas relacionada com práticas de enfermagem — o que só prova que o Google não é tão esperto quanto isso.

Em face dessa situação, achei por bem esclarecer certos aspectos que aqui transcrevo, não vá um dia ser acusado de perseguição, discriminação ou desrespeito pelos enfermeiros, e declarar que não me move nenhum instinto persecutório contra essa classe profissional.

Em primeiro lugar, porque a enfermagem é uma profissão indispensável à prestação de cuidados de saúde e o enfermeiro é parte essencial de qualquer equipa de profissionais que pretenda prestar cuidados primários, hospitalares ou continuados, embora, naturalmente, o seu grau de importância varie de contexto para contexto e de especialidade para especialidade.

Em segundo lugar, porque está demonstrado por vários estudos que os enfermeiros igualam ou superam os médicos na execução de determinadas tarefas clínicas, nomeadamente a nível dos cuidados primários. Tendo em conta a maior duração do treino médico e os maiores ordenados auferidos, parece-me claro que o futuro está na transferência de tarefas do lado médico para o lado da enfermagem, pois, do ponto de vista económico, não se justifica ter profissionais altamente especializados a realizar tarefas que podem ser realizadas com iguais (ou melhores) resultados por profissionais menos diferenciados.

Em terceiro lugar, porque tenho bons amigos enfermeiros e todos eles excelentes profissionais.

Em quarto lugar, porque seria suicida. Por um lado, como médico, tenho necessidade de contactar diariamente com enfermeiros e está claro que ter más relações com os colegas de trabalho só contribui para criar um mau ambiente e para diminuir, quer a satisfação, quer o desempenho profissionais. Por outro lado, como alguém fez questão de me lembrar num dos comentários, é provável que, mais cedo ou mais tarde na minha vida, venha a precisar dos cuidados dum enfermeiro (na verdade, já precisei várias vezes e eles já meteram água duas vezes, num cateterismo e numa punção venosa, o que não me deixa muito bem impressionado, mas adiante!).

Porém, tal como qualquer equipa desportiva necessita dum capitão para poder actuar eficazmente em campo, a equipa de saúde precisa também de alguém que assuma responsabilidades de coordenação. Esse papel cabe e tem de caber ao médico, porque, em último caso, este é o responsável por todo o cuidado prestado ao doente. A minha experiência diz-me que muitos enfermeiros têm dificuldade em aceitar tal facto.

Já vi enfermeiros a dizerem aos doentes que acabam de sair do consultório que o médico está errado e para reclamarem. Não estou a dizer que os médicos são infalíveis, bem pelo contrário: vêem-se erros de bradar aos céus! Estou a dizer é que, como elemento da equipa, deve o enfermeiro discutir os seus argumentos com o médico e não instigar o doente contra este, pois, se, a curto prazo, pode estar a ajudar o doente ao corrigir o erro do médico, a longo prazo o efeito será retirar confiança ao doente no seu médico e, por inerência, a toda a equipa dos cuidados de saúde.

Já vi enfermeiros a escreverem receitas dentro dum consultório. Eram fármacos não sujeitos a receita médica e o papel era dum bloco de notas, ou seja, nada de ilegal. Todavia, estando o médico a examinar o doente, não cabe ao enfermeiro começar a escrevinhar no seu consultório mezinhas para o doente. A prescrição ainda é um acto médico e não de enfermagem e sei também por experiência própria que os enfermeiros não gostam de ver os médicos — nem os auxiliares — a imiscuir-se nas suas tarefas.

Já vi enfermeiros a impedir médicos de efectuar punções venosas por estarem em greve. Um médico está habilitado a efectuar tal procedimento e, ainda que sejam os enfermeiros a fazê-lo ordinariamente, na falta destes, pode o médico realizá-lo. Respeito o direito à greve e compreendo muitos dos motivos de reivindicação, mas respeito mais o direito à vida e não aceito que uma mãe não possa usufruir dos cuidados médicos a que tem direito enquanto dá à luz porque os senhores enfermeiros não concordam com as políticas do Ministério da Saúde (a cena que acabo de relatar passou-se num bloco de partos).

Em suma, a ver se eu e os enfermeiros nos entendemos: o papel da enfermagem é imprescindível na prestação de cuidados de saúde, mas os outros papéis são igualmente importantes e, para que todos funcionem harmoniosamente, é necessário que haja coordenação, a qual deve ser supervisionada pelo médico, ao qual todos os intervenientes devem satisfações.

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