Por Gustavo Martins-Coelho

Com quatro canais exclusivamente noticiosos produzidos em Portugal (a que se juntam mais vinte canais internacionais do mesmo cariz) [1], não é de surpreender que, a cada semana que passa, se dediquem mares de ondas hertzianas a todo o tipo de «casos», que é preciso vender a uma audiência sedenta. Nos meses mais recentes, entretivemo-nos durante uns tempos com a febre hemorrágica por vírus ébola [2], que já mata africanos desde 1976, mas só agora começou a ameaçar matar mais a Norte; depois, dedicámo-nos com afinco a acompanhar o espectáculo que foi a detenção de tudo quanto era gente, a propósito de vistos dourados [3] (e aqui pergunto-me por que temos de ser pindéricos ao ponto de lhes chamar «gold», que é uma palavra inglesa que, ainda por cima, é um substantivo e não um adjectivo, não podendo, por isso, ser usada para qualificar outro substantivo, como pretendemos fazer, quando, ainda para mais, dispomos dum adjectivo em Português para isso: dourados, vistos dourados — mas adiante!); agora, andamos a espreitar por entre as cortinas do Campus da Justiça, em Lisboa, para entrever o que acontece ao mais mediático dos detidos — José Sócrates [4]. Pelo meio, ainda tivemos tempo para dar honras de cobertura em directo a uma coisa inoportunamente baptizada pelos jornalistas de «surto de Legionella» [5].

Hoje, pretendo falar sobre o «surto de Legionella»; e começo por afirmar que é um despropósito, muito revelador da forma atamancada como os factos dignos de notícia são tratados pelo jornalismo, chamar «surto de Legionella» à coisa. Surto, segundo o dicionário [6], é o «aparecimento rápido ou aumento súbito de casos de doença»; Legionella é um género de bactéria [7], que pode provocar uma doença, chamada doença do legionário (ou legionelose) [8]. Então, se o surto é o aumento de casos de doença (e não o aumento do número de bactérias) e Legionella é o nome da bactéria, é uma impossibilidade semântica a existência dum «surto de Legionella».

Falemos, então, do surto de doença do legionário! Antes de mais, porquê este nome? Curiosamente, a doença do legionário foi descoberta no mesmo ano em que o vírus ébola foi identificado (1976), mas nos Estados Unidos da América, e chama-se assim, porque foi descoberta durante a 58.ª convenção anual da Legião Americana [9], uma associação dos veteranos de guerra norte-americanos. Como os doentes eram legionários, a doença chamou-se do legionário. De resto, a criatividade na hora de dar nomes a doenças vai buscar inspiração às fontes mais diversas: no caso do ébola, foi o rio mais próximo do local onde o vírus foi identificado; no caso da doença do legionário, foi o contexto em que primeiro foi identificada a doença.

Mas não percamos o fio à meada: a tal convenção teve lugar num hotel em Filadélfia e, durante o seu decurso, 182 veteranos apresentaram sintomas respiratórios, desde coisas do género da gripe até pneumonias atípicas, as quais acabaram por resultar na morte de 29 pessoas. A investigação subsequente identificou uma bactéria, até então desconhecida, que se tinha alojado na água do sistema de ar condicionado do hotel e se tinha espalhado por essa via. Em Portugal, em 1979, identificou-se o primeiro caso de doença do legionário [10].

Os surtos de doença do legionário são frequentes: o de Vila Franca de Xira foi o 18.º, este ano, no mundo inteiro [11]. Não há vacina e a letalidade, mesmo com o melhor tratamento, ronda os 20 %. Por este motivo, agora que o surto que nos manteve ocupados acabou, o mais importante é perceber que pode voltar a acontecer, em qualquer parte do País, e saber o que podemos fazer para evitar essa transmissão. A Direcção-Geral da Saúde tem, a este propósito, um guia bastante bom, disponível de forma gratuita na Internet [10], cuja leitura recomendo vivamente. Para a semana, procurarei resumir neste espaço [11] os aspectos-chave da prevenção da doença do legionário.

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