Por Carlos Lima

O cérebro [1, 2] precisa continuamente de sangue [3], para lhe fornecer glicose [4] e oxigénio; isto deve-se ao facto destes elementos não poderem ser armazenados dentro do próprio cérebro.

As necessidades são de tal ordem, que 25 % do sangue de cada batimento cardíaco se destina ao cérebro.

Devido a esta grande necessidade de sangue, o cérebro possui uma estrutura de irrigação própria, destinada a manter o equilíbrio e a pressão constante, bem como uma forma de assegurar a irrigação de forma permanente. Sabe-se que sete segundos sem fornecimento de sangue podem ser suficientes para a pessoa perder a consciência.

2015010301 As artérias que fazem o sangue chegar ao cérebro podem dividir-se em dois grandes tipos: as artérias vertebrais e as artérias carotídeas.

As artérias vertebrais são duas, têm origem nas artérias subclávias esquerda e direita e seguem junto à coluna vertebral [5], para se unirem na artéria basilar, na parte superior do pescoço. A artéria basilar, ou tronco basilar, entra no crânio pelo buraco magno, que é o orifício do crânio que também dá passagem à medula espinhal.

As artérias carótidas são duas (direita e esquerda) e têm origens diferentes: a carótida direita tem origem no tronco braquiocefálico, enquanto a carótida esquerda tem origem na artéria aorta. Cada carótida divide-se em duas, as carótidas interna e externa. São as carótidas que se palpam quando procuramos os pulsos no pescoço — e que os socorristas procuram para avaliar o estado cardíaco do doente inconsciente.

Mas o que torna diferente o sistema circulatório cerebral é o famoso polígono de Willis [6]. As artérias, de que já falámos, juntam-se nesta estrutura circulatória na base do cérebro e é dele que saem praticamente todas as artérias que irrigam o cérebro. Tem como principais funções equilibrar as pressões sanguíneas de entrada no cérebro e criar caminhos alternativos para que o sangue se mantenha a circular, mesmo que uma das grandes artérias tenha uma interrupção momentânea. No entanto, a pressão cai e a irrigação do cérebro fica comprometida, se qualquer das grandes artérias falhar, gerando-se rapidamente a inconsciência. A inconsciência é um dos mecanismos que o cérebro tem para se proteger dum deficiente fornecimento de sangue, pois leva à queda da pessoa; e a pessoa deitada garante um mais fácil fornecimento de sangue ao cérebro, bem como reduz a actividade cerebral e, com isso, reduz as necessidades de sangue e, naturalmente, de glicose e oxigénio.

A partir do polígono de Willis, são diversas as artérias que penetram profundamente no cérebro, em ambos os hemisférios, garantindo a formação do líquido cefalorraquidiano. É o líquido cefalorraquidiano que faz chegar nutrientes às células nervosas presentes no cérebro e na medula espinhal, o que quer dizer que o sistema que irriga o cérebro é também responsável pela nutrição da medula espinhal. Outro aspecto a referir é que o líquido cefalorraquidiano é um filtrado do sangue que chega ao cérebro, por uma espécie de membrana, que cria a chamada barreira hematoencefálica, protegendo o cérebro de substâncias tóxicas que possam circular no sangue.

As veias que drenam o sangue vindo do cérebro acompanham as grandes artérias e convergem nas veias jugulares internas e externas, o que cria um sistema venoso profundo e outro mais superficial. Tal como as artérias, encontram-se unidas entre si, para garantir uma drenagem mais eficaz do sangue cerebral.

Podemos dizer que a irrigação de sangue ao nosso cérebro funciona como o nosso fornecimento de energia eléctrica, ou seja, tem de ser fornecido de forma constante. Tal como a nossa rede eléctrica, existem redes de alta tensão (grandes artérias), de média tensão (polígono de Willis) e de baixa tensão (artérias cerebrais). A criação duma rede de média tensão à volta da nossa cidade faz com que as redes de baixa tensão possam ser abastecidas em diversas estações de média tensão, garantindo assim um fornecimento de electricidade muito mais eficaz e com menos falhas. Já nas zonas periféricas, onde a rede é só uma linha, o fornecimento é mais frequentemente interrompido e por períodos mais prolongados, porque, por regra, não existem estes mecanismos de compensação.

A interrupção do fornecimento de sangue, ou o extravasamento hemorrágico de sangue no cérebro gera uma zona de sofrimento ou morte cerebral, o chamado acidente vascular cerebral (AVC). O AVC é tão mais grave quanto maior for a área afectada e o período de socorro mais alargado. A via verde do AVC, do INEM, cria o atendimento prioritário para reduzir o tempo de chegada da pessoa ao atendimento especializado.

Saúde!

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