Por Sara Teotónio Dinis

Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão.

Norte–Sul, Este–Oeste — todos os dias, em todos os segundos, os humanos continuam a nascer e a arcar com a sua sorte [1].

Pelo Noroeste, andamos calmos e sossegados. Acordamos sem vontade e somos salvos pelo café; conduzimos até ao sacrifício e aturamos as pessoas que nos rodeiam; comemos gordura, sal e açúcar, para (tentar) matar a ansiedade; aguardamos eternamente o fim do turno, o fim do mês, as férias e o Ano Novo; jantamos no centro comercial, depois de preencher os vazios com mais uns trapos e quinquilharias; lavamos o corpo, sem conseguir purificar a alma; e deitamos-nos tarde, depois de partilhar a vida aqui e acolá, sobre tudo e quase nada. Podemos não andar tão felizes como queríamos, mas adormecemos sem medo de estrondos e de barriga cheia.

Pelo Sudeste, o cenário não é tão colorido… Há uns anos, entrei na Fnac e descobri um livro interessante por apenas cinco euros — um achado, portanto. É um livro utópico, mas só porque não interessa a quem de poder que a «utopia» se torne possível. «O Fim da Pobreza» [2] foi escrito por Jeffrey D. Sachs [3] e é a perspectiva deste senhor que eu cito hoje aqui na «Rua…» [4].

O mundo de hoje não oferece prosperidade a todos. Mais de mil milhões de pessoas lutam a cada dia pela mera sobrevivência; e muitos não são bem sucedidos nessa luta.

[…]

As perdas mais chocantes são as que resultam das doenças evitáveis ou tratáveis, tais como o sarampo infecções respiratórias, paludismo, tuberculose e sida.

No calor do nosso ambiente diário, estas coisas parecem remotas. Sabemos que elas existem, mas não sentimos que são efectivamente reais. Por isso é que, face a notícias de atentados terroristas em solo Ocidental, ficamos empolgados e nos sentimos feridos, porque oh! céus, a liberdade de expressão é a base fundamental da nossa democracia! São 21.000 [5] as crianças com menos de cinco anos de idade que morrem, por dia, todos os dias — no «outro lado do mundo». Sem saber escrever a palavra «democracia». Sem ter a oportunidade da «liberdade de viver».

Porquê? É a questão que se coloca. A resposta é crua e dura — porque interessa.

Em 2000, chefes de Estado e de governo, reunidos numa cimeira, aprovaram a Declaração do Milénio. Como se pode ler na página da ONU em Português [6], «a secção III desta Declaração foca o tema “Desenvolvimento e erradicação da pobreza” e foi o principal documento de referência para a formulação dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio. Os Objectivos representam uma parceria entre os países desenvolvidos e os países em desenvolvimento, tendo em vista criar um clima, tanto a nível nacional como mundial, que conduza ao desenvolvimento e à eliminação da pobreza.»

Portanto, em 2000 acreditava-se ser possível erradicar a pobreza extrema até ao ano de 2015 [7]. Fomos bem sucedidos [8]?

Fomos tão bem sucedidos que a ONU teve de lhes dar outro nome e adiar a data por mais quinze anos — os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio, caducados este ano, foram substituídos pelos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (com «prazo» até 2030) [9].

O que é que isto tudo tem a ver com o terrorismo? No calor do nosso aconchego, nada. No seio da fria análise, tudo. Devemos parar para nos questionarmos: porque é que os extremistas são assim — extremistas? E por que é que nos odeiam tanto, a ponto de matar caricaturistas?

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