Por Sara Teotónio Dinis

Tanto no hospital como no centro de saúde, o médico pode ser confrontado com várias situações e queixas, por parte dos doentes: aumento da utilização dos cuidados de saúde; vários motivos de consulta; queixas inespecíficas, que continuam sem resposta após investigação — palpitações ou «picadelas», dispneia ou «falta de ar», dor torácica ou «aperto no peito», dores articulares e musculares várias, insónias, epigastralgia ou «ardume no estômago», choro fácil…

As causas? Famílias disfuncionais, problemas económicos, questões sociais — isoladamente ou em conjunto, a dar origem a síndromes depressivas, ou a perturbações ansiosas.

O contexto nacional actual tem indirectamente lançado um desafio quase impossível aos médicos e aos assistentes sociais por Portugal inteiro. É como se, governo após governo (o próprio uso da palavra é uma antítese) dissesse aos profissionais mencionados algo do género:

Aqui têm 2.865.000 Portugueses [1] em situação de pobreza ou exclusão social, sem dinheiro para se vestirem ou darem de comer aos filhos e com problemas de saúde, como qualquer um dos mortais neste planeta.

Tratem-nos segundo as últimas normas clínicas [2], mas com a certeza de que vamos continuar a procurar alternativas para lhes cobrar os transportes não urgentes [3] e não vamos financiar os medicamentos mais indicados na totalidade.

Não se esqueçam de que as verbas para os apoios sociais também estão racionadas e subcalculadas, ou que já não dispõem de apoio psicológico na maioria dos centros de saúde, ou que as listas de espera por vagas nos demais tipos de instituições de apoio e integração social são extensas.

Vamos monitorizar o vosso trabalho e empenho com afinco através de indicadores [4], que são obrigados a preencher (e, se possível, cumprir, dadas as condições já estipuladas), mas não vamos criar fundos destinados à prevenção primária, tais como comparticipação em ginásios ou associações desportivas, ou incentivos à compra de consumíveis portugueses (tais como frutas, legumes, carne e peixe), dado que preferimos delegar essa tarefa na recolha de alimentos periódica levada a cabo pelos bancos alimentares e pelas paróquias, consistindo, sobretudo, em produtos enlatados e processados, importados do estrangeiro.

Na impossibilidade de conseguirem dar resposta às necessidades destes doentes no Serviço Nacional de Saúde, não se preocupem. Subvertam o nosso sistema [5], utilizando os meios possíveis para conseguir entrar no exercício médico privado, e estudem e operem os mesmos doentes com maiores lucros pessoais, graças às nossas parcerias público-privadas [6], que com prazer financiamos, com a vantagem de nem sequer sairem da mesma cidade.

Saúde para todos? A pergunta não é «quem é que se importa?», mas sim «a quem é que interessa?»…

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