Por Sara Teotónio Dinis

Eu diria que há remédios para todos os males. Sim, julgo que não é assim tão descabido afirmá-lo. Contudo, há que esclarecer um ponto fundamental: nem todos os remédios são fármacos.

Explicar isto aos doentes que nos procuram não devia ser tão difícil, mas há elementos presentes na natureza de todos, que nos dificultam a tarefa, sejam a negação, a tristeza, a anedonia, a cobardia, a preguiça, o desamparo, a fraqueza…

Obesidade, tabagismo e depressão são exemplos dos problemas que podemos ajudar a combater com fármacos, mas cujo principal factor decisivo reside apenas dentro do doente — a vontade. A vontade de perder peso, a vontade de deixar de fumar, a vontade de voltar a ser feliz — enfim, a vontade de melhorar!

Quando a motivação dos doentes fraqueja, ou é quase inexistente, podemos ser confrontados com pedidos de fármacos utópicos, tais como o fármaco que faz desaparecer os quilos em excesso num piscar de olhos, o fármaco que acaba com os problemas laborais ou familiares sem chatices, o fármaco que mata as vontades das coisas que fazem mal mas que sabem tão bem…

Perante estes pedidos impossíveis, há uma mão cheia de conselhos e de recomendações que podemos sugerir aos doentes em quase todas as situações em que já prescrevemos o indicado e nos vemos confrontados com uma vontade muito tímida, ou há uma necessidade óbvia de complemento terapêutico. São medidas que actuam em sinergia com os comprimidos, que, em determinados casos assumem, maior importância do que os primeiros e que, em determinadas patologias reactivas a problemas emocionais e psicológicos, podem mesmo solucionar a raiz de todos os males.

Caminhar

No âmbito da perda e do controlo do peso, os estudos mais recentes apontam para uma eficácia igual à da corrida, com o bónus de menor impacto a nível articular. Para além deste efeito, caminhar é a medida terapêutica mais simples, eficaz e acessível no tratamento da lombalgia e um complemento terapêutico importantíssimo na hipertensão, na dislipidemia e em estado pós enfarte. Caminhar em grupo estimula o convívio com outras pessoas e a distracção dos problemas. Para além de tudo isto, é uma actividade física gratuita e com possibilidades de circuito infinitas. Como se vê, argumentos não faltam.

Ouvir música

Sobre a música, assim disse Victor Hugo:

La musique expresse ce qui ne peut être dis, et sur ce quoi il est impossible d’être silencieux.

E assim disse Leonard Bernstein:

Music can name the un-nameable and communicate the unknowable.

A música pode reflectir ou ocultar um problema, cuspindo-o na nossa cara ou falando doutras coisas, respectivamente. É uma catarse relativamente acessível, com considerável capacidade de contágio sentimental. Ouvindo as lamúrias das melodias ou dos versos, podemos sentir-nos menos sozinhos nas nossas provações emocionais; escutando notas opostas ao nosso estado de alma, distanciamos-nos momentaneamente das nossas ânsias e podemos ter uma pausa para respirar. Pode acordar-nos de manhã, acompanhar-nos para o trabalho e no regresso a casa e embalar-nos o sono. Pode também ser ouvida quando das lides domésticas, ou quando vamos caminhar.

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