Por Carlos Lima

Quando se pensa em bactérias, o nosso primeiro pensamento é perigo e doença, mas a realidade não é bem assim. No sistema digestivo, temos um conjunto de bactérias e outros microrganismos [1], que desempenham um papel fundamental, para que consigamos absorver melhor os nutrientes.

O seu trabalho é desenvolvido em conjunto com as enzimas [2], as hormonas [3], os sucos e os movimentos intestinais [4], de forma a completar a degradação e a transformação dos alimentos em nutrientes [5], passíveis de serem absorvidos pelo intestino [4].

Pensa-se que as bactérias sejam os microrganismos mais numerosos e que 60 % das fezes seja composto por bactérias. Actualmente, conhece-se a acção de aproximadamente quarenta famílias de bactérias intestinais, ainda que existam muitas mais. A relação entre os seres humanos e as bactérias permite-nos tirar proveito dos alimentos e a elas a sobrevivência, ou seja, existe proveito para ambos os lados.

As suas principais funções são:

  • Facilitar da absorção dos alimentos, quer por processos de degradação directa, quer por processos de fermentação;
  • Colaborar na prevenção de infecções, pois funcionam como reguladores da presença de bactérias nocivas e como sensibilizadoras do sistema imunitário [6, 7], sensibilizando o organismo para alguns agentes potencialmente alergénicos;
  • Produzir vitaminas como a biotina, ou vitamina B7, [3] e a vitamina K [4]. A biotina ajuda na absorção das gorduras, das proteínas [2] e dos hidratos de carbono [8] e é necessária para a saúde da pele, das unhas [9] e do cabelo [10]. Já a vitamina K desempenha a sua acção no processo de coagulação sanguínea [11].

No bebé [12] e dentro da barriga da mãe [13], não existe flora intestinal; demora cerca de um mês até esta atingir níveis satisfatórios para a digestão das gorduras — daí o aparecimento de cólicas por volta desta idade, pois estas bactérias produzem gases, durante o processo de fermentação. Grande parte da colonização é feita através da mãe — quer durante o trabalho de parto [14], quer quando amamenta [15], beija e dá carinho ao bebé. Apesar dos leites de fórmula (lata) já incluírem os pré-bióticos, ou seja, os estimuladores da flora intestinal, estima-se que só por volta dos três meses se atinjam níveis satisfatórios.

A flora intestinal está completa para cada indivíduo por volta dos três anos e, a partir daí, sofre pequenas alterações, pois funciona como uma assinatura biótica do indivíduo e, quando esta é destruída por algumas doenças, tende a reconstruir-se com as mesmas características, ou características muito parecidas.

As diarreias, habitualmente, alteram muito a flora intestinal, substituindo-a por flora agressiva. A reposição é determinante e facilitadora da recuperação, daí que o consumo de iogurtes [16] nesta fase possa ser útil.

A toma de antibióticos também altera e destrói parte da flora bacteriana do intestino, ao ponto da pílula contraceptiva não ser transformada para ser absorvida. É aqui que reside a explicação da ineficácia da pílula quando existe a toma de alguns antibióticos, pelo que deve informar o seu médico de que está a tomá-la, para não correr riscos desnecessários.

A flora intestinal é um caldo de microrganismos presentes no tubo digestivo. A sua manutenção e estimulação contribui para uma boa saúde intestinal. Existem, no entanto, algumas bactérias que podem prejudicar a saúde e mesmo estimular o aparecimento do cancro. Só o rastreio permite saber da sua existência e tomar as medidas para evitá-las ou controlá-las.

 Saúde!

Anúncios