Por Sara Teotónio Dinis

Eu sou médica interna [1]. Cumpro um horário laboral de quarenta horas. A actividade que desenvolvo depende do local onde me encontro a receber formação específica e é muito variada. Na unidade de saúde onde fiquei colocada, participo na consulta ombro-a-ombro, faço consulta autónoma (com «o meu nome por baixo» desde o início deste ano) e estudo o ficheiro (estudo da população, do ficheiro de utentes, investigação variada). Nas unidades hospitalares por onde passo, acompanho as actividades de internamento, de consulta externa e de urgência.

O meu trabalho de médica interna não termina no momento em que «passo o dedo» [2]. Levo sempre trabalho para casa; e são dois os meus TPC: rever a matéria leccionada e testemunhada in vivo nos últimos oito anos e meio; e planear e executar trabalhos no âmbito curricular (relatos de caso, revisões de tema, trabalhos de investigação ou de avaliação e melhoria de qualidade).

Sou da classe «privilegiada» de médicos internos que não cumpre horário assistencial aos fins-de-semana, mas preencho os dias de Sábado e Domingo com tarefas necessárias à preparação e à apresentação atempadas dos trabalhos referidos anteriormente; e também, por vezes, em formação externa contínua, que concretizo presencialmente em jornadas e congressos vários.

Habito uma casa arrendada, cuidando dos meus poucos impulsos consumistas, para que, no início de cada mês, consiga continuar a pagar a sua renda e as contas de água, luz e internet. Tento, com alguma dificuldade, cuidar para que o seu estado de conservação e de limpeza me permita continuar a habitá-la com alguma serenidade e tranquilidade (as necessárias a uma mente ocupada e em constante funcionamento no plano laboral). Tento cuidar também de poupar o necessário à manutenção do veículo que utilizo para o meu transporte regular e pendular. Os gastos anuais são consideráveis e consistem no pagamento do seguro, do imposto de circulação e da manutenção do veículo em si.

Cuido para que não me falte o mantimento na despensa e no frigorífico, indo para isso periodicamente aos hipermercados comuns. Trato para que a roupa que visto esteja lavada e apresentável; e para que as batas não comprometam a segurança no trabalho (e, se possível, não pareçam muito amarelas).

Faz-me companhia um felídeo que adoptei há dez meses, que alimento todos os dias e aconchego sempre que posso. Esporadicamente, podemos receber visitas ou estadias curtas de amigos.

Estou numa terra que não é a minha, a uma hora de viagem de minha casa e dos meus, mas cuido em saber o que lhes é feito todos os dias, dado que também eles travam, com as suas dificuldades, a sua luta diária por viver dignamente e, se possível, felizes. Eles ajudam-me quando fico em aperto, seja qual for a sua natureza. Tento ajudá-los da mesma forma sempre que posso, mas estou e estarei em dívida para sempre. A eles, sou eternamente grata.

O «Olho Clínico» [3] foi hoje, de propósito, uma partilha mais pessoal, para que quem leia tente perceber que não é fácil. Há certamente muito mais difícil que isto, mas é esta a minha vida — e para mim não é fácil. Tento fazer o melhor que posso e sei, do alto dos meus 26 anos. Poderia, sem dúvida, fazer mais, mas como? Não sei. Ainda.

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