Por Sara Teotónio Dinis

Perante as mais variadas situações da vida, o ser humano reage (a ausência de reacção é, também e por si só, uma reacção). Muitas vezes, reage intempestivamente. Outras vezes, fá-lo após um período de reflexão, por muito curto — ou muito longo — que este seja.

A reflexão é fulcral. A reflexão pré-reactiva é a nossa oportunidade dourada de controlo da nossa conduta e, por isso e em parte, da nossa vida. É vital à nossa sobrevivência física e social. Sem o travão do superego o nosso id deixa-se levar pela emoção e a resposta pode comprometer-nos — perante os outros, a nossa imagem está sob escrutínio permanente; há uma mensagem que a nossa reacção transmite, que é captada e gravada por quem nos observa e ouve e que é interpretada e armazenada consoante as redes de conceitos que cada um dos receptores construiu até àquele momento específico em que emitimos a nossa mensagem. As nossas frases (faladas ou escritas), as nossas acções e, mais recentemente, os nossos posts [1] aqui e ali influenciam a relação do mundo externo connosco. Tanto umas como outras têm o defeito de não se conseguirem apagar — nem da memória de quem as viu ou ouviu, nem dos servidores de localização incógnita que suportam esta enorme rede onde eu e o leitor nos encontramos neste momento.

A necessidade de assegurar a nossa integridade física é óbvia; nos dias de hoje, assegurar a nossa integridade moral é igualmente fundamental. A nossa imagem é exposta duma forma sem precedentes — à distância de parcas dezenas de cliques, a partir dum nome é possível descobrir uma face; a partir duma face chega-se a uma profissão; e a partir da profissão poderá descobrir-se um local, um percurso casa–emprego–casa, enfim… Dito desta forma, pode tornar-se assustador, mas claro que, com peso, medida e consciência, tudo tem as suas vantagens.

Integridades à parte, o ponto da questão é aquele momento de decisão, aquela fracção de tempo antes da reacção humana perante determinada situação que se lhe apresente. Por muito curto ou longo que o período pré-reactivo seja, é nele que nos confrontamos com a luta interior que há-de ir connosco para a cova (salvo seja) — a luta da dualidade, e que Ash Beckham descreveu tão bem na sua TED Talk [2].

É a luta entre o que nos apetece mesmo dizer e entre o que sabemos ter de dizer; a luta entre dizer a verdade ou mentir e entre declarar ou omitir; a luta entre arriscar ou jogar pelo seguro; a luta entre confiar no outro ou reforçar o muro que nos separa; a luta entre deitar achas para a fogueira ou puxar da mangueira e apagar as fagulhas; a luta entre levantar a lebre ou ignorar a lebre; a luta entre fazer o que consideramos mais justo, ou aceitar a impotência perante a realidade diária da injustiça; a luta entre a nossa identidade pessoal e a nossa identidade profissional; a luta entre a nossa personalidade em estado puro e a sobrevivência social. A luta entre confiar ou não. No fim disto tudo, a luta entre os nossos dois lados — o lado insatisfeito, contestatário, polémico e vistoso e o lado completo, colaborante, pacífico e discreto: o lado que nos torna inconfundíveis e o lado que nos mistura na multidão.

Esta vida é madrasta… Parece sempre que os seus timings nunca estão ajustados às necessidades. É por isso que a boca nos foge e falamos mais do que devíamos, ou que fazemos coisas de que nos arrependemos mais tarde. E o contrário? Oh sim!, também acontece muito não dizermos o que fazia sentido, e ficarmos impávidos, sem nada ter mudado…

Falando ou não, fazendo ou não, arriscamos-nos, atirando-nos na imperfeição que nos caracteriza e diferencia e entregando-nos à possibilidade do arrependimento — mais uma luta constante, nesta coisa a que chamamos vida.

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