Por Sara Teotónio Dinis

No Sumário Executivo do Plano Nacional de Saúde 2012–2016 [1], pode ler-se, na página 11, no sétimo ponto — relativo às «Políticas Saudáveis» (um dos quatro eixos estratégicos do Plano) —, que as estratégias para o reforço das políticas saudáveis assentam «em estratégias de médio e longo prazo de comunicação social e de marketing social».

Nesta perspectiva, o canal televisico SIC [2] passou do papel à acção e mostrou à Direcção-Geral da Saúde (DGS) [3] uma das formas de concretizar o sétimo ponto com qualidade e eficiência: produziu uma reportagem de elevado valor informativo e educativo, que passou em horário nobre no dia 2 de Abril, véspera de feriado, dedicada ao problema da obesidade infantil e dos maus hábitos alimentares, em geral.

A reportagem foi a posteriori disponibilizada na página do canal, em versão interactiva [4]. Para além do conteúdo, de elevado valor, na perspectiva da prevenção, do profissionalismo dos médicos, dos nutricionistas e dos investigadores que nela testemunham a sua experiência, conseguindo ao mesmo tempo passar a mensagem com linguagem acessível a todos (aspecto de extremo zelo que prezo muito), e da humanidade dos pais que aceitaram partilhar as suas histórias e as suas falhas, está repleta de conteúdos úteis, tais como as quantidades de açúcar presentes em vários produtos alimentares do dia-a-dia, dicas para aprender a ler os rótulos dos alimentos, a calendarização das frutas da época ao longo do ano, sugestões de pequenos-almoços mais saudáveis, etc.

Num país onde, tal como é referido aos 38 minutos, 96 % dos gastos em saúde se destinam ao tratamento e apenas 4 % à prevenção, seria de esperar que reportagens de igual peso e gabarito fossem já regra nos canais públicos, em igual horário e com igual extensão — e por iniciativa da DGS. Contudo, isso não se verifica. (Por que é que isto não surpreende?)

Vale a pena ver e rever, entender, tirar notas. Como cidadão comum e como médico, se for o caso. Usarei esta reportagem como ferramenta de trabalho e aconselho os meus colegas a fazer o mesmo, partilhando-a [4] com quem tiver facilidade de acesso e partilhando os pontos-chave com quem não tem (ou não sabe ler).

Acrescentaria somente um único ponto à reportagem — a explicação por A + B que «comer saudável» não tem de ser obrigatoriamente sinónimo de «comer mais caro»; muito pelo contrário, pode ajudar a poupar bastante dinheiro a um agregado familiar. Pegando no exemplo dos refrigerantes, tão falados logo no início da reportagem e que contêm entre 30 a 35 gramas de açúcar por cada 330 mililitros, pode comparar-se o preço dum litro de Coca-cola com o dum litro de água — aproximadamente um euro e dez cêntimos, respectivamente. Podemos falar dum Bolicao e dum pão — oitenta cêntimos e dez cêntimos, respectivamente. Muitos mais exemplos se seguiriam.

— Que o teu remédio seja o teu alimento e o teu alimento o teu remédio — faz todo o sentido e é daquelas máximas pelas quais se deve guiar esta parte da nossa vida.

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