Por Gustavo Martins-Coelho

Quando vou ao supermercado fazer as compras da semana, estou mais interessado em levar para casa tudo o que necessito para a frugalidade do meu dia-a-dia, do que em salvar a Amazónia, mas o Jumbo não quer perceber que, na minha hierarquia de necessidades, comer é mais importante do que aproveitar a sombra das árvores e, já antes de sermos ambientalistas por ordem superior [1], teimava em brindar-me com o dia sem sacos, entre outras malfeitorias. Vá lá, ao menos, que as suas caixas registadoras correm Linux. Nem tudo pode ser mau!

Nunca soube em que altura do mês calhava o dia sem sacos do Jumbo (nem sei se ainda continua a acontecer, agora que é preciso pagar por eles), mas sei que sucedeu ir às compras num desses dias: sacos, nem vê-los! Trouxe as compras na mão, bem acessíveis ao olhar de todos os transeuntes. «Transeunte» é uma palavra horrível, tão feia que só lhe descobri rimas com verbos conjugados no presente do conjuntivo, o que pode nada significar, posto que o meu talento para rimar é tanto como para remar [2]). Mas é mesmo de transeuntes que falo: alguém que passa — e há que chamar os bois aos nomes, mesmo que as palavras sejam feias e desajeitadas.

Outra palavra feia e desajeitada é o verbo «regozijar-se» — e todas as palavras da sua família. Como é possível encontrar um pingo de folguedo no regozijo?! Parece-me mais adequado a um funeral…

— Regozijemo-nos, amigos, pelo falecimento deste nosso ente querido — diz o padre; e todos vertem uma lágrima compungida, na despedida da recordação dos momentos felizes.

Pelo menos, seria discreto. Agora, assim, é puramente hipócrita. O morto é a pessoa menos importante no seu próprio funeral. Os vivos vão lá para ver, ser vistos e pôr a conversa em dia com os restantes vivos. Poucos sofrem verdadeiramente a perda. Muitos regozijam-se.

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