Por Gustavo Martins-Coelho [a]

As greves costumam ser por motivos laborais. Por vezes, podem ir de encontro à defesa doutros valores, quando a dignificação dos profissionais contribui para a melhoria das funções sociais do Estado, ou quando a luta pelos direitos dos funcionários públicos responde a um preconceito ideológico. Mas, na sua essência, uma greve é e deve ser egoísta, embora deva haver solidariedade de classe, sob pena dos trabalhadores, divididos, perderem os direitos que conquistaram, quando se uniram. Assim, independentemente dos juízos de valor sobre uma classe e os motivos que a levam à greve, este direito tem de ser respeitado.

O mesmo raciocínio deve ser tido para com os dirigentes sindicais. Independentemente de concordarmos com as suas ideias, eles são as faces visíveis dum movimento de contestação às medidas de qualquer governo. Atacar o Mário Nogueira, da Fenprof, como é feito sempre que há greve, é atacar o sindicalismo, o direito à greve e qualquer forma de resistência dos trabalhadores às políticas do governo.

Ainda por cima, os ataques costumam ser à pessoa e não às suas ideias: porque o Mário Nogueira não dá aulas. Mas uma instituição com a dimensão da Fenprof não se dirige nas horas vagas. Esta acusação aos dirigentes sindicais, que não é feita no contexto doutras actividades associativas, resulta ou dum completo desconhecimento das actividades desenvolvidas pelos sindicatos, ou da tentativa tornar a actividade sindical inviável. O exemplo acabado foi o do líder da JSD (que, entre outras coisas, defende o fim da saúde e da educação gratuitas e não se importa com a emigração dos jovens), quando perguntou quanto custam os sindicatos da educação. Quem faz este tipo de proposta é a favor do direito à greve se ele não for exercido, do sindicalismo se ele não for viável e da concertação social se apenas uma das partes tiver voto na matéria.

Se a crítica fosse à falta de democracia interna dos sindicatos (embora os sindicatos dos professores até sejam dos mais democráticos), ou ao afastamento dos sindicalistas por demasiado tempo dos seus locais de trabalho, ou à partidarização dos sindicatos, eu subscrevê-la-ia. Mas as críticas são: os grandes sindicatos deveriam ser dirigidos em horário pós-laboral (resultando em estruturas amadoras, fracas, sem recursos, a negociar com instituições públicas e associações patronais profissionais); o recurso à greve é inaceitável porque quer fazer cair um governo eleito, ou prejudica a economia, ou prejudica os utentes, ou porque resulta de privilégios.

Esgotada a demagogia, sobra a caça ao Nogueira: as greves são do PCP; as manifestações são dos bloquistas do costume; interromper a intervenção dum ministro viola a liberdade de expressão. Salta-se o debate sobre as razões da contestação, para discutir apenas a legitimidade da forma de contestação. Ficou célebre o resultado duma pesquisa dum apresentador de televisão brasileiro sobre a opinião das pessoas quanto aos tumultos que sucederam nesse país, que resultou num apoio esmagador às manifestações [2]. Os telespectadores não defendiam a violência, mas perceberam que estavam a ser manipuladas por alguém que tentava virá-las contra o exercício democrático do protesto. O mesmo acontece em Portugal: sempre que uma forma de luta se mostra potencialmente eficaz, manipula-se a opinião pública contra quem se atreveu a resistir a esta aviltante gestão do discurso da inevitabilidade.


Nota:

a: O artigo original pode ser lido no «Expresso» [1].

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