Por Sara Teotónio Dinis

Este mês, continuo em estágio fora da minha unidade. Depois de quatro estágios hospitalares opcionais, cheguei à Psiquiatria. Comecei este estágio na área reservada aos tratamentos de desintoxicação e de desabituação de drogas e de álcool.

Não conseguirei transmitir por palavras o turbilhão de sentimentos e pensamentos que me têm assaltado nestas últimas semanas… Testemunhar o sofrimento dos outros, de forma tão acentuada e tão perto, sempre foi difícil. Tenho o defeito de não conseguir meter o coração ao largo. As histórias vão comigo para casa, marcam-me dalguma maneira, temo pelo futuro dalguns, volto a perguntar por eles…

Hoje, não consigo ir mais além nesta reflexão, mas quero reforçar uma ideia que se vai repetindo dentro daquelas paredes: antes de tudo o resto, o doente mental é uma pessoa como todas as outras. Por isso, tem necessidades e sentimentos.

O doente mental tem um cérebro doente, que condiciona as suas escolhas. Pode ou não aperceber-se disso. O doente mental está mais sujeito aos consumos excessivos de álcool e ao uso de drogas. Porquê? Porque o álcool e as drogas «apagam» muita coisa. Ter um cérebro doente dói (e não estamos a falar da típica «dor de cabeça»). As substâncias de que estes doentes abusam adormecem a dor do mal que sofreram no passado (em pequenos, sobretudo) e do mal que fizeram mais tarde; aliviam o peso da culpa e o peso das consequências do seu comportamento (a nível familiar, social, laboral, legal…); suspendem-nos num transe entre a dor que passou e a dor que há-de vir — se tiverem a coragem de sair da dependência.

Quem tem a coragem de pedir ajuda e querer sair vai sentir muita dor — física, mas sobretudo psicológica. Quanto a esta, não há milagres, nem psicotrópicos, que resolvam os problemas desencadeantes pela raiz.

— Agora que já és tu outra vez, sem drogas, sem muros entre ti e o mundo… como te sentes?

— Oh! doutor… Sinto um vazio dentro de mim!…

— E a droga preenchia-te esse vazio…

— Sim… Sem ela, estou na merda…

— Boa! Estás no bom caminho.

Voltarei a este assunto.

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