Por Jarrett Walker [a]

Uma versão resumida dum capítulo do meu livro, com elementos dum artigo recente [2], mas com um exemplo extenso do BART, que espero que os leitores apreciem e comentem.


Em 2011, o cartógrafo Daniel Huffman achou que seria interessante desenhar bacias hidrográficas [2] como se fossem sistemas de metropolitano. A figura 1 mostra parte do seu esboço do Baixo Mississippi.

Figura 1. Bacia hidrográfica do Baixo Mississippi, desenhada como um mapa de transporte colectivo (Daniel Huffman)

É uma ideia divertida, mas também aponta para uma visão importante. Se o leitor navegar rio acima, verá o caudal do rio tornar-se cada vez menor. De cada vez que chegar a uma ramificação, o caudal dos dois rios à frente será o mesmo que o caudal do rio que fica para trás. Se o leitor continuar, chegará finalmente a um rio demasiado pequeno para o seu barco. O transporte colectivo é semelhante, visto que a ramificação duma linha divide a frequência.

Este é um daqueles pontos demasiado óbvios, mas que são fáceis de esquecer, no calor dum debate sobre transporte colectivo. Por exemplo, em 2003, o sistema de transporte Bay Area Rapid Transit (BART) abriu uma nova extensão para o Aeroporto Internacional de São Francisco (SFO) e também para Millbrae, um importante ponto de ligação à rede de comboios urbanos Caltrain. A extensão básica, em direcção ao Sul de São Francisco, tem a estrutura da imagem do topo da Figura 2.

É um triângulo, com linhas de São Francisco tanto para SFO como Millbrae, e uma concordância também entre Millbrae e SFO.

Se o leitor pensar inconscientemente como um automobilista, olhando para o esquema como se fosse um mapa de estradas, tudo parece bem. Todos os pontos no mapa estão ligados directamente a todos os outros. Mas o transporte colectivo não pode fazer todas essas ligações com a mesma frequência, por causa do efeito de ramificação. O padrão real de serviço terá de ser uma das imagens abaixo na mesma figura. Nestas imagens, a espessura da linha representa a frequência.

Figura 2. Terminal BART do Aeroporto de São Francisco (SFO)

Por exemplo, suponha o leitor que pretende serviço a cada dez minutos, tanto para SFO como Millbrae, mas só pode sustentar tais frequências na linha de São Bruno para São Francisco. Nesse caso, é necessária uma das duas opções «sequenciais» no canto superior esquerdo da Figura 2, ou fazendo todas as ligações para Millbrae via SFO, ou todas as ligações para SFO via Millbrae. Os passageiros para SFO ou para Millbrae vão odiar o leitor.

Em alternativa, poderíamos ramificar o serviço em São Bruno, enviando metade dos comboios para SFO e a outra metade para Millbrae. Mas essa ramificação vai cortar a frequência. Se só podemos pagar uma frequência de dez minutos em São Bruno, então vamos ter frequências de vinte minutos em SFO e em Millbrae.

Finalmente, podemos ter frequências de dez minutos em toda a extensão, forçando um transbordo. Um lado do percurso teria um vaivém, enquanto o outro terá serviço directo.

Existe ainda uma quarta opção, embora não disponível no sistema BART. Podemos dividir o comboio ao meio e enviar a metade da frente por um ramo e a metade traseira pelo outro. Isto é muito complicado; requer um maquinista pronto para assumir o controlo de metade do comboio, quando ele chega. É também difícil dividir um comboio sem pelo menos um ou dois minutos de espera, pelo menos, para a metade traseira do comboio dividido.

Em suma, devemos desconfiar sempre que vemos uma ramificação duma linha de transporte colectivo desenhada como se ela pudesse facilmente dividir-se em duas linhas iguais. Muitas vezes, tal ramal será chamado «extensão» [3], uma palavra um pouco enganadora, porque sugere que uma quantidade de serviço já existente e conhecida está a ser ampliada. Na verdade, uma ramificação significa sempre uma de três coisas. Ou:

  • os pontos além do ponto de ramificação têm serviço menos frequente, ou
  • um dos ramos funciona como um vaivém, o que requer um transbordo, ou
  • nalguns casos raros, o próprio comboio se divide, com algumas carruagens a prosseguirem ao longo dum ramo e algumas ao longo do outro.

Geometricamente, uma ramificação tem de significar uma destas três coisas — e pode não ser a sua preferida. Portanto, antes de decidir se o serviço lhe será útil, ou se deve apoiar um projecto de transporte colectivo cujo mapa se parece com este, talvez o leitor queira perguntar qual delas é.


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

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