Por Hélder Oliveira Coelho

A vida é como um grande palco. Pelas tábuas, tudo passa. Na comunhão da arte com o público se imortaliza o artista.

A obra que transcende o homem mais é sentida em quem se transporta nas telas, nas tábuas, nas partituras… E se à arte há que dar seriedade, ao homem há que dar a paz de não se levar a sério. O processo inacabado que cada um cria de si terá tanto mais sucesso, quanto maior o caminho que a obra há-de percorrer sem o artista. Se a memória colectiva os imortaliza, se o carinho traz deles a saudade da partida dum ente querido, se a obra o transcende nas coisas mundanas, então o artista foi bem sucedido.

A dimensão que tomamos dele raras vezes é a que ele toma de si. Porque os grandes se tornam pequenos e, embora a efemeridade do êxito não raras vezes se deixe ultrapassar pelo seu brilho ofuscante, é a qualidade do seu trabalho que lhe serve de mortalha.

O grande reconhece que o plano do que fez já o ultrapassou e o que o plano do que há-de fazer é o caminho a seguir. Quando está tomada esta consciência, sabe-se que estamos inacabados e que perfeita será a próxima obra. Ao público, a sorte de poder discutir onde o artista se sublimou.

A verdadeira sublimação está na vontade. A vontade de continuar a fazer mais e melhor. A vontade de rir do que se fez e ansiar pelo que ainda se pôde fazer. Os grandes mestres não se vestem de vaidade, antes da vontade de não acabar o que começaram. A vontade de fazer novo. A gargalhada da novidade, o ridículo de si, o estranho dos outros, o afecto do mundo, o escárnio do pequeno, o louvor da simplicidade.

Partiram Herberto Helder e Manoel de Oliveira. Não quiseram estátuas ou nomes de rua. Não há saudade. Transcenderam-se na obra. Fica o desejo do que estaria ainda por vir.

Que sorrisos? Quais sorrisos?

Na época pascal, deixo-vos com a vontade da sempre jovem Joan Baez. Há dias, assisti a um fantástico concerto, no Coliseu [1]. Quem em plena oitava década de vida, continua a defender o que sempre acreditou, merece, como ela, pisar o palco e ter uma sala cheia a aplaudir. Forever young [2].

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