Por Gustavo Martins-Coelho [a]

Este artigo inicia hoje a descrição da evolução do serviço de passageiros na rede ferroviária portuguesa, linha a linha, entre 2009 e 2013. Não foram anos felizes.

Ramal da Lousã

Foi encerrado em 2010, para se realizarem as obras do metro do Mondego, que não chegaram a acontecer. Em 2009, circulavam diariamente no Ramal da Lousã 35 comboios; o número médio de passageiros por comboio em 2004 era de 173 (o mais elevado de todo o serviço regional, com excepção da Linha do Norte). Hoje, existe um serviço de autocarros, com mais do dobro de viagens e menos 13 % de passageiros. O menor tempo de viagem entre Serpins e Coimbra passou de 41 minutos para 120 minutos; e entre a Lousã e Coimbra de 33 para 50 minutos.

Linha do Corgo

Foi encerrada em 2009, para manutenção, e nunca reabriu. Em 2009, havia dez comboios diários, cujo tempo de viagem era superior ao de décadas antes. O serviço de autocarros alternativo (também dez diários) foi suprimido em 2012.

Linha do Tâmega

Foi encerrada na mesma data da linha do Corgo, pelo mesmo motivo, e nunca reabriu. Em 2009, havia quinze comboios diários, cujo tempo de viagem, tal como na linha do Corgo, era superior ao de décadas antes. Os quinze autocarros diários do serviço alternativo foram suprimidos também em 2012.

Ramal da Figueira da Foz

Foi encerrado em 2009, para modernização, e nunca reabriu. Em 2009, circulavam no Ramal da Figueira da Foz seis comboios diários, que demoravam 1h25 a percorrer os 50 km da linha (mais lento do que no início da década), que foram substituídos por igual número de autocarros diários, que deixaram de circular em 2012.

Linha do Leste

Foi encerrada ao tráfego de passageiros em 2012, após dois anos de obras de modernização, quer permitiram melhorar o tempo de viagem em 47 minutos, para 2h02, sem ter sido criado um serviço de transporte público alternativo.

Ramal de Cáceres

Foi encerrado em 2011. Em 2009, circulavam neste ramal quatro comboios diários e o comboio internacional. Em sua substituição, não foi criado um serviço alternativo de transporte público.

Linha do Tua

A maior parte da linha foi desmantelada, na sequência da construção da barragem do Tua, tendo ficado reduzida ao troço entre Cachão e Mirandela e ao metro de Mirandela, isolado da restante rede ferroviária. Em 2009, havia catorze comboios diários; em 2013 havia oito no troço remanescente e quatro ligações de autocarro em substituição da parte ferroviária que foi desmantelada, que a CP pretende suprimir.

Linha de Leixões

Foi iniciado em 2009 e novamente encerrado em 2011 o serviço de passageiros, com 55 comboios diários. O serviço projectado nunca chegou a ser concretizado na totalidade.

Linha de Vendas Novas

Tal como na Linha de Leixões, foi introduzido em 2009 um novo serviço de passageiros, com dez comboios diários, que foi encerrado em 2011.

Linha do Minho

Foi inaugurada, em 2010, a variante da Trofa, encerrando a linha que passava no centro da cidade. Apesar da introdução de portagens na A28, entre 2009 e 2013, a oferta de 24 comboios diários manteve-se, dos quais apenas um terço percorre a totalidade da extensão da linha, entre o Porto e Valença. Nas restantes ligações, é necessário um transbordo em Nine, cujo tempo médio de espera aumentou de 19 minutos em 2009 para 31 minutos em 2013. No entanto, os tempos totais de viagem reduziram-se entre oito e doze minutos. Os tempos das viagens entre pontos intermédios também se reduziram, globalmente, ainda que pouco.

Linha do Algarve

Entre 2010 e 2011, foram concluídas as obras de renovação integral da linha, nos troços que ainda não tinham sido renovados, desde o início da década, mas sem reflexo nos tempos de viagem. Apesar da introdução das portagens na A22, entre 2009 e 2013, a oferta de comboios reduziu-se de 55 para 47 ligações diárias e os tempos de viagem situam-se entre as 2h50 e as 3h49, para percorrer 140 km, com paragens, em média, a cada 5 km e um transbordo obrigatório em Faro, com tempo de espera que chega a atingir uma hora. As automotoras em circulação estavam previamente destinadas à sucata e, por disporem de ar condicionado, fizeram aumentar o preço do bilhete…

Linha do Sul

Foi aberta em 2010 a variante de Alcácer (29 km) — para cuja inauguração foi fretado um comboio Alfa Pendular, que seguiu vazio de Lisboa, enquanto a comitiva seguia por auto-estrada — e encerrados 49 km de linha. Em 2009, circulavam catorze comboios diários; em 2013, a oferta reduziu-se para dez. O serviço regional foi extinto e o Intercidades deixou de servir Setúbal (120 mil habitantes) e Alcácer do Sal (que deixou de ter qualquer serviço ferroviário) e passou a servir Ermidas-Sado, Funcheira, Santa Clara-Sabóia e Messines-Alte. Os tempos de viagem entre o Porto e Faro reduziram-se entre cinco e 31 minutos. Entre Lisboa e Faro, o ganho foi de 10–31 minutos.

Linha do Douro

A oferta e o tempo de viagem mantiveram-se inalterados entre 2009 e 2013, mas há algumas curiosidades a registar: foi anulado o projecto de electrificação da linha; as automotoras são alugadas em Espanha e têm um custo superior às da CP, mas, como têm ar condicionado, levaram a CP a aumentar o preço dos bilhetes; mais de metade das ligações do Porto ao Marco de Canaveses obrigam a transbordo em Caíde; e o tempo para percorrer estes 60 km chega a atingir 1h43, enquanto, do Porto à Régua, 103 km podem chegar a fazer-se em 2h43!


Nota:

a: O artigo original pode ser lido no blogue «A nossa terrinha» [1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10].

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