Por Nuno Rua

O presente artigo pretende abordar, numa perspectiva iconográfica, uma xilogravura de Hans Burgmair. A xilogravura em questão situa-se hoje no Metropolitan Museum of Art [1], após a doação de W. L. Andrews, em 1888. O imperador sacro romano Maximiliano I encontra-se no centro desta xilogravura, rodeado de instrumentos musicais, que os seus músicos preparam e afinam afincadamente. É dado à visão um grande número de instrumentos, o que torna a imagem riquíssima a nível da linguagem transmitida sobre a temática da música.

O autor desta xilogravura, técnica que usa a madeira para reproduzir o desenho, como se fosse um carimbo, foi um pintor alemão, Hans Burgkmair, nascido em 1473 em Ausburgo e falecido em 1531. Filho do também pintor Thomas Burgmair, foi aluno do pintor e gravador Martin Schongauer, que lhe conferiu as bases que o levaram a trabalhar em projectos de xilografia para o sacro imperador romano Maximiliano I, até à morte deste, em 1519.

Maximiliano I de Habsburgo nasceu em Wiener Neustadt, a 22 de Março de 1459, e morreu em Wels, a 12 de Janeiro de 1519. Foi sacro imperador romano de 1486 a 1519. Filho do imperador Frederico II e da imperatriz D. Leonor de Portugal, possuía títulos como o de conde de Tirol, duque de Estíria, senhor da Suíça, duque da Caríntia e ainda, senhor da Suábia. Por esta quantidade de títulos e pela eleição como imperador do Sacro Império, é considerado, por muitos historiadores, o mais poderoso dos príncipes alemães, desde Frederico II. Casou-se em 1477 com a sua prima materna, a duquesa Maria de Borgonha, filha de Carlos, o Temerário. Maximiliano conseguiu anexar o território borgonhês, já na fase em que estava viúvo. O imperador teve mais dois casamentos. Em 1508, após ter governado sem o título oficial, acabou por obter o consentimento necessário daquela altura, a coroação do Papa Júlio II. Foi sucedido pelo seu neto, Carlos V de Habsburgo.

Através da xilogravura, podemos dar-nos conta da importância que a música tem para o imperador: note-se que ele anda pelo meio dos músicos, contente por ver todo aquele contexto que envolve a música. A própria existência duma xilogravura com os instrumentos daquela época é algo que mostra a importância da música para Maximiliano. Também podemos observar, na xilogravura, mulheres a tocarem instrumentos de sopro, algo que seria raríssimo naquela época.

Esta xilogravura foi criada numa época em que se verificava a ascensão da música instrumental, ao contrário do que antes tinha sido a sobrevalorização da polifonia vocal. Foram os compositores sérios que estiveram na génese do aparecimento de estilos e de formas independentes de composição para instrumentos. Os instrumentos participavam em todo o tipo de música praticada durante a Idade Média, sobretudo como acompanhantes das vozes, mas já existia muita música a ser praticada de forma instrumental; são exemplos disso os códices de Robertsbridge e de Faença, que contam com arranjos instrumentais. Por este caminho, a partir de 1450, o volume de música instrumental escrita começou a aumentar, facto que potenciou a teoria da evolução positiva do estatuto dos instrumentistas, que outrora eram menosprezados.

Podemos ver na xilografia um orgão de tubos, uma harpa, uma espineta, um tambor, um timbale, um alaúde, uma sacabuxa, uma flauta, um cromorno, flautas doces, uma viola e uma tromba marina. Se esta própria xilografia prova o crescente interesse pela música instrumental no século XVI, não menos prova disso são as publicações de livros que descrevem instrumentos detalhadamente, ou dão instruções sobre a forma de tocá-los.

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