Por Jarrett Walker [a]

Estávamos nós a ter uma agradável conversa sobre peritos e activistas [2] no belo campo do abstracto, quando o Engineer Scotty nos trouxe de volta à Terra [3]:

Infelizmente, em muitos casos, as restrições [sobre as opções que podem ser consideradas no estudo] não são impostas pelo decisor (especialmente em sistemas políticos onde grande parte do poder é distribuído), mas por agentes externos, que podem estar envolvido em auto-engrandecimento ou procura de lucro à custa dos resultados do transporte colectivo, mas cuja participação é necessária para que o projecto avance.

E, em muitos casos, essas pessoas não querem deixar impressões digitais nos documentos de planeamento — jamais alguém vai ver um estudo de impacto ambiental [EIA] declarando explicitamente que [a opção de autocarros não foi] considerada para o projecto X, porque o promotor imobiliário Y retiraria o seu apoio ao projecto, levando ao vereador Z, seu aliado, a votar não; ou, pelo contrário, que o governador W é um teabagger [4] que considera o transporte ferroviário uma trama soviética e, portanto,, o BRT [sistema de autocarros rápidos] era a única opção de transporte rápido possível de analisar no [EIA preliminar], a fim de evitar um veto. Estes tipos de decisões políticas são tomadas nos bastidores, off the record, e, de seguida, muitas vezes justificadas ex post facto, quando alguém nota o cheiro a esturro.

[…]

Os consultores de boa reputação não devem assumir tarefas que envolvam declarar que a noite é dia, numa tentativa de disfarçar uma flagrante má decisão política. No entanto, em situações como as acabadas de descrever, há muito espaço para os consultores de renome ajudarem os operadores de transporte colectivo a salvar o melhor duma má situação — se a realidade política duma situação exigir que o operador A crie uma rede de transporte colectivo usando somente eléctricos em trânsito misto, deixando os outros modos de fora, um bom consultor ajudá-la-á a projectar o melhor sistema de eléctricos, dentro do seu orçamento.

Correndo o risco de deturpar as palavras do Jarrett […], às vezes, é isto que «ajuda[r] o público a pôr em prática os seus valores» realmente significa. Muitas vezes, os «valores» em questão não são os valores dos passageiros, da comunidade, ou do operador, mas os dos poderosos que controlam o destino do projecto em questão, que podem ter pouco interesse real em melhorar a mobilidade.

Como consultor, eu gosto de trabalhar em situações em que os principais participantes realmente querem explorar as opções e reflectem os valores da comunidade. Dito isto, não acredito que haja um consultor de planeamento de transporte colectivo experiente no mundo que não se tenha visto em situações como a que o Scotty descreve.

Especialmente nas grandes áreas urbanas, de elevada complexidade, o consultor trabalha para o operador, que é seu cliente, o qual, mais cedo ou mais tarde, responde perante os governantes eleitos; e, se esses governantes não estiverem contentes, o consultor será provavelmente responsabilizado. Portanto, sim, num mundo ideal, os governantes eleitos representam as aspirações e os valores das pessoas. Mas, se os governantes eleitos decidirem fazer valer os valores doutra pessoa — bem, eles ainda terão o poder de decisão e, então — sim, são esses valores que prevalecem.

Alguns puristas defendem que, sempre que alguém fala sobre os ideais elevados, que reflectem os valores da comunidade, e, de seguida, trabalha em situações reais, em que outros objectivos têm precedência, essa pessoa é hipócrita. Há alguma validade nessa posição. No entanto, todos temos de viver entre os modos idealista e prático de pensamento. O leitor pode sentir que a empresa X está a agir de forma eticamente errada, mas, enquanto luta, terá na mesma de viver num mundo em que a empresa X continua a agir dessa forma. É uma das coisas mais difíceis que os seres humanos são obrigados a fazer, na verdade, porque nós queremos, em diferentes graus, sentir-nos puros e consistentes e, por isso, sentimo-nos desconfortáveis em trabalhar dentro duma situação que sabemos que, em termos gerais, é dalguma forma errada.

Eu tenho pensado muito sobre isto, porque uma crítica comummente recebida por mim, como consultor, pelo menos na minha juventude errante, era que, muitas vezes, eu falava sobre ideais em momentos em que todos na sala procuravam uma visão prática da situação política actual. Na meia idade, estou melhor, nisto de trabalhar em qualquer situação em que me encontre, mas ainda sinto o desconforto e dou-lhe valor. Enquanto eu me sentir desconfortável com a situação do mundo real, eu sei que a minha adaptação à situação não está a prejudicar a minha capacidade de manter ideais claros e de agir sobre eles. Só começaria a preocupar-me, se me sentisse confortável.


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

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