Por Satoshi Kanazawa [a]

Nos últimos dois artigos [2, 3], eu expliquei a lógica da psicologia evolutiva por trás da criminalidade masculina; por que os homens, nas sociedades poligâmicas, são compelidos a envolver-se em crimes contra a vida e contra a propriedade, a fim de obter acesso reprodutivo às mulheres. Ainda que a esmagadora maioria dos criminosos, em todas as sociedades humanas, sejam homens, existem algumas excepções: algumas mulheres cometem crimes. Dada a lógica da psicologia evolutiva, porém, por que qualquer mulher cometeria um crime, de todo?

A psicóloga evolutiva que mais fez para explicar a criminalidade feminina é a professora Anne Campbell, da Universidade de Durham, no Reino Unido, que oferece a teoria «da sobrevvivência» da criminalidade feminina, que responde à questão de por que uma mulher cometeria um crime. A teoria começa com a observação fundamental de que a sobrevivência dos filhos e, portanto, o sucesso reprodutivo depende mais fortemente dos cuidados e do investimento materno do que paterno. Portanto, é imperativo para as mães, mais do que para os pais, sobreviverem o tempo suficiente para cuidar dos seus filhos, de forma a garantir a sua sobrevivência até à maturidade sexual. Esta é, na argumentação de Anne Campbell, a razão por que as mulheres são mais avessas ao risco do que os homens. O benefício potencial de correr riscos — envolvendo-se em competição física por recursos e companheiros, por exemplo — simplesmente não justifica o custo potencial (a própria sobrevivência da sua descendência, que depende fortemente da sobrevivência da própria mãe). O principal objectivo duma mulher é, portanto, manter-se viva, por causa dos filhos.

Anne Campbell prossegue a sua argumentação salientando, no entanto, que as mulheres necessitam ocasionalmente de competir por recursos e companheiros, especialmente quando estes são escassos. É por isso que as mulheres, às vezes, competem por uns poucos «homens bons» e, ocasionalmente, recorrem à violência e ao roubo para atingir os seus objectivos, ainda que, de acordo com o seu principal objectivo de sobrevivência, as suas tácticas de competição sejam geralmente de baixo risco (furto em vez de roubo) e indirectas (cuscovilhar e espalhar rumores sobre uma rival romântica atrás das suas costas, em vez de confronto físico directo com ela).

No seu trabalho mais recente, Anne Campbell vai ainda mais longe, em direcção à integração teórica da criminalidade masculina e feminina. Ela argumenta que homens e mulheres não diferem entre si nos benefícios da agressão: homens de estatuto elevado, que são os vencedores da competição masculina, podem ter acesso a parceiras e, assim, mais oportunidades de sexo; mas as mulheres de alto estatuto, que são as vencedoras da competição feminina, podem obter prioridade de acesso aos recursos e uma maior protecção, oferecida pelos machos de alto estatuto. Por outras palavras, diz Anne Campbell, as mulheres têm de competir por parceiros de alta qualidade tanto quanto os homens. São, portanto, apenas os custos da agressão que distinguem os homens das mulheres e explicam a bem menor incidência de agressão entre estas.

Anne Campbell aponta que «o roubo por parte de mulheres está geralmente ligado a necessidades económicas e ocorre como parte das suas responsabilidades domésticas para com os filhos», enquanto «o roubo é o crime do sexo masculino por excelência, no qual a violência é usada tanto para extorquir recursos como para ganhar estatuto». Além da sua tendência e inclinação para evitar riscos físicos e qualquer perigo, esta é outra razão por que as mulheres cometem menos crimes do que os homens. As mulheres só roubam aquilo de que precisam para si e para os seus filhos sobreviverem, enquanto os homens roubam para se exibir e ganhar estatuto e recursos. Por outras palavras, as mulheres roubam menos do que os homens exactamente pela mesma razão por que elas ganham menos do que eles. As mulheres geralmente ganham menos do que os homens, porque tendem a fazer apenas o que precisam e, normalmente, têm coisas melhores para fazer do que ganhar dinheiro, enquanto os homens são motivados a ganhar muito mais do que precisam para sobreviver, a fim de usar o dinheiro para atrair as mulheres. Da mesma forma, as mulheres roubam menos do que os homens, porque tendem a roubar o que precisam para sobreviver e não usam o crime para outros fins, tais como exibicionismo e estatuto.

Vou terminar esta colecção [4] com o próximo artigo, em que relatarei uma história pessoal, que ilustra perfeitamente a teoria de Anne Campbell.


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

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