Por Gustavo Martins-Coelho

É muito raro encontrar amigos, ou pessoas minhas conhecidas, por aí. Mais depressa alguém que vem visitar-me à cidade onde moro encontra, por coincidência, um conhecido, lá da terra, que também está de visita, ou se mudou, do que eu encontro um autóctone meio conhecido. Como sou um bicho do mato e aprecio conversas em redor de temas eruditos, não tenho muitas pessoas suficientemente íntimas para me dirigirem a palavra espontaneamente. As poucas que o vão fazendo, ainda assim, esforçam-se por não tornar a saudação um hábito demasiado frequente e evitam-me sempre que podem, de modo que, quando me vêem ao longe, mudam de direcção, para não terem de cruzar-se comigo e serem constrangidas a dizer-me:

— Bom dia.

Mas, dentro da raridade, vai sucedendo encontrar conhecidos aqui e ali. Ultimamente, tem-se intensificado; e tende a concentrar-se no Jumbo. Não sei porquê. Tudo pode acontecer no Jumbo. Há um manancial doutros clientes que fazem e dizem coisas, no Jumbo. Por exemplo: certa vez, fui lá comprar fruta. O senhor que estava à minha frente — um total desconhecido, pois doutra forma não poderia ser — pegou num saco de plástico e ofereceu-mo espontaneamente, poupando-me o trabalho de desenrolar um para mim. São estes pequenos nadas que lembram, a cada momento, que ainda há gente boa. Talvez a fé na Humanidade não esteja de todo perdida.

Outra vez, saí do Jumbo com as compras na mão: era o dia sem sacos [1]. Os sacos das compras protegem a nossa privacidade. Agora, paga-se pela privacidade (abdicar dela é todavia gratuito: basta abrir uma conta no Facebook [2]). Mas, logo naquele dia em que estava tão exposto, sem sacos que me protegessem, cruzei-me, ao sair do Jumbo, com uma colega — psiquiatra. Fiquei preocupado ante a perspectiva dela conseguir descortinar todas as minhas perversões, incluindo as mais íntimas e algumas sexuais, apenas por ver com que encho a despensa — e o frigorífico.

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