Por Carlos Lima

Toda a actividade física [1, 2, 3] é susceptível de provocar lesões, pelo envolvimento que faz dos tecidos corporais, sejam eles músculos [4], ossos [5], tendões, ou mesmo células nervosas. Existem actividades que, pela sua natureza agressiva, são mais propensas a provocar lesões, como é o caso dos desportos em que o contacto é permitido, sendo o futebol um exemplo disso.

É raro o caso dum atleta de alta competição que não tenha sofrido uma lesão considerada grave, apesar de toda a evolução da medicina desportiva, das leis do jogo, das protecções utilizadas e da melhoria da qualidade do treino. Mas o que me preocupa mais é a lesão desenvolvida em crianças e adolescentes, ou seja, na formação. Muitos clubes ditos de formação não têm um técnico minimamente habilitado a identificar e a tratar a lesão desportiva, deixando tudo a cargo dos treinadores, dos atletas e dos pais.

É natural que os treinadores queiram que os melhores jogadores participem no jogo, para terem mais hipóteses de ganhar. São recentes as declarações de Guardiola quando, em jeito de crítica, elogiou a capacidade de sofrimento de Jackson Martinez, ao referir que ele jogou infiltrado no joelho [6].

Por outro lado, nas idades mais jovens, os atletas querem jogar a todo o custo, para mostrarem o seu valor, apenas se queixando no momento em que são questionados, ou quando já não aguentam mais. Além disso, no momento em que não dói, tudo parece possível, correndo os jogadores riscos que, por vezes, agravam as lesões.

As lesões desportivas podem assumir diversos tipos, quanto às estruturas que afectam: musculares, ósseas, ligamentares, tendinosas e por sobrecarga. Relativamente ao tempo em que ocorrem, podem ser agudas e crónicas. Esta estratificação é plausível e parece-me que não carece de esclarecimento; no entanto, merece alguma reflexão.

A lesão aguda tem, no momento em que ocorre e nas 48–72 horas seguintes, o tempo óptimo para uma boa recuperação, ou, no mínimo, para o seu não agravamento. Assim, a formação dos agentes desportivos deve incidir também nestes aspectos.

A lesão crónica tem, nas idades referidas, muito que ver com fases de crescimento, com posturas corporais e com cargas excessivas. As sobrecargas nem sempre ocorrem por culpa dos treinadores, mas porque os atletas chegam aos treinos ao final dum dia em que não pararam — por vezes, depois de duas horas de Educação Física, na escola; sem tempos de repouso adequados; e, ainda assim, cheios de vontade de mostrar nos treinos o que de melhor têm, para entrar nas convocatórias e, por essa via, na competição.

Outro factor não controlável, mas que pode dalguma forma ser gerido, tem que ver com a qualidade dos pisos e dos equipamentos. Os pisos duros, com calçado inadequado, favorecem as lesões. É conhecida a proliferação de relvados sintéticos, dado apresentarem custos menores, a longo prazo. Mas, se a qualidade não for boa e o cuidado extremoso, geram imensos problemas relacionados com lesões, pois os pisos não permitem a absorção dos impactos dos saltos e todo o esforço é transmitido às articulações, aos músculos e aos tendões.

Quanto ao equipamento, o atleta, na fase de formação, quer ter equipamento igual ao do seu ídolo. No futebol, os ídolos jogam em relvados bem cuidados e apropriados à modalidade. Trazer esses equipamentos para outros contextos resulta em risco de lesão. Mesmo que assim não seja, nem sempre é possível trabalhar todas as vezes no mesmo tipo de piso e os atletas, por diversas razões, entre as quais económicas, não podem ter dois ou três tipos de equipamento (no futebol — chuteiras), pelo que o risco de lesão aumenta ainda mais.

Outro factor relaciona-se com a qualidade do início da prática. Nos treinos, regra geral, faz-se o aquecimento e mobilizam-se as articulações, para preparar o corpo para a prática da modalidade; mas, noutros contextos, nem sempre é assim. Se dermos uma bola a um grupo de atletas, sem os condicionar, a primeira coisa que fazem é remates. Os remates são o gesto mais violento, dentro do desporto com bola.

A lesão desportiva preocupa-me, porque muitas carreiras desportivas são comprometidas pela sua presença. Todos olhamos para o atleta que teve que abandonar a modalidade por uma lesão grave, mas esquecemos os inúmeros atletas que não chegaram sequer à vida profissional, devido a lesões.

Já aqui disse que cada vez se trabalha melhor ao nível da formação, mas gostava de ver muito mais empenho no trabalho de prevenção da lesão incapacitante da prática do desporto. Gostava de que os responsáveis pelo processo de formação se preocupassem e respeitassem o atleta e o seu futuro.

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