Por Sara Teotónio Dinis

Em cena, o diálogo perde-se, com a complexidade teimosa do modus operandi dum encenador ausente, que não gosta da peça original.

Ele quer um médico-máquina, até chegar o computador-consultor. Monitoriza todo e qualquer parâmetro acessório, reduzindo os actos a indicadores.

No meio da plateia, eu tenho o texto na mão. Rumino a impaciência e tomo notas num frenesi. Continuar inquieta é fácil e rápido, embora se manifeste inútil. Utilidade — palavra chave:

— O tempo é o bem mais precioso! — sopra o velhote, parado a um canto do palco, alheio à consulta que se desenvolve na cena principal.

Tem razão. O tempo foge-me por entre os dedos, como areia fina. De que serve sublinhar o que toda a gente vê? Repetir o que toda a gente ouve?

No palco, a consulta termina. O doente não sai de cena, ao contrário do que julga o médico, que está absorvido pelo teclado, a ultimar os registos clínicos. O pano inicia o seu percurso descendente.

O encenador conseguiu — alcançou a ignorância da arte. Anulou o tempo antigo — aquele usado para ouvir, para olhar, para entender, para explicar, para tranquilizar, para dar esperança…

O público comenta a frieza e a inoperabilidade. Nos meus dedos, a caneta acelera o queixume, escrevendo ditames de comando:

— Em círculo, perderás tempo! Não deixarás nada a quem passe!

Imperativo de consciência — o que se poderá acrescentar ao que outros já sabem, e há bem mais tempo? O que se poderá adicionar ao que já foi escrito?

Cai o pano no chão do palco e o público dispersa. A caneta fica suspensa no ar. O relógio não pára, mas o tempo é relativo — entre outras coisas, ao que dele se fizer.

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