Por Alice Santos

Em Março, ao iniciar esta coluna [1], resolvi fazê-lo com uma poetisa [2], pois tínhamos acabado de comemorar o dia da mulher. Abril e a revolução lembraram-me Ary dos Santos [3].

Assim, em Maio, trago-vos outra mulher e tentarei manter esta cadência: mulher, homem, mulher, homem…

Ana Hatherly nasceu a 8 de Maio de 1929, na Cidade Invicta. Professora, escritora e artista plástica, a sua actividade desenvolveu-se nas várias vertentes.

Foi professora catedrática da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Aí co-fundou o Instituto de Estudos Portugueses. É diplomada em Cinema, pela London Film School, e licenciada em Filologia Germânica, pela Universidade de Lisboa, e é, também, doutorada em Estudos Hispânicos, pela Universidade da Califórnia, em Berkeley.

No âmbito cinematográfico, leccionou na Escola de Cinema do Conservatório Nacional e no AR.CO, em Lisboa. Encontramos cópias dos seus filmes no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian e no Arquivo da Cinemateca Portuguesa.

Simultaneamente, desenvolveu uma carreira como artista plástica, iniciada na década de 1960, com um extenso número de exposições individuais e colectivas, em Portugal e no estrangeiro.

Esteve na génese do P.E.N. Clube Português, ao qual viria a presidir. Foi membro da Direcção da Associação Portuguesa de Escritores e foi ainda membro destacado do grupo da poesia experimental, nas décadas de 1960 e 70, além de se ter dedicado à investigação e à divulgação da literatura portuguesa barroca, fundando as revistas «Claro-Escuro» e «Incidências».

Foi, em 1978, agraciada com a Medalha Oskar Nobiling, pela Academia Brasileira de Filologia do Rio de Janeiro; em 1998, obteve o Grande Prémio de Ensaio Literário da Associação Portuguesa de Escritores; em 1999, o Prémio de Poesia do P.E.N. Clube Português; e, em 2003, o Prémio de Poesia Evelyne Encelot, em França, e o Prémio Hannibal Lucic, na Croácia.

Colaborou com o Movimento 57, (ou Movimento da Cultura Portuguesa), que teve início em Maio de 1957 com a publicação do 1.º número do jornal «57», a par de grandes nomes como Agostinho da Silva, Agustina Bessa Luís e muitos outros.

A sua poesia é «Pensar/é como tactear uma sombra/entrar de rastos/numa profusão de escuros«. É voar, «É só subir no ar,/levantar da terra o corpo, os pés?»… «é libertar-me,/é parar no espaço inconsistente/é ser livre, leve, independente/é ter a alma separada de toda a existência/é não viver senão em não-vivência»… «é partir/e não voltar.»

Partir e não voltar, porque não podemos ficar como éramos, antes de ler Ana Hatherly.

As palavras, para esta autora, são tudo. Elas «aproximam:/prendem-soltam […] «Soltam freios/abrem clareiras no medo/fazem pausa na aflição/Ou então não:/matam/afogam separam definitivamente». E, porque também escrevia o amor, dizia que «Amando muito muito/ficamos sem palavras».

No seu livro «Aparências», publicado em 1959, o segundo de poesia, leva-nos até ao sonho «Que vai do infinito ao infinito» e «É a medida sem comparação», sendo que o tempo também é um elemento constante na sua poesia, pois «o tempo é um passo/que em seu próprio espaço/Cabe.»

A sua poesia existe «porque é preciso é gente», «gente com mente/com sã mente», «Gente que enterre o dente/que fira de unha e dente/e mostre o dente potente/ao prepotente/gente/que atire fora com essa gente» e é para toda a gente, aquela gente que «não quer/ser dominada por gente».

Contudo, o melhor mesmo é o leitor partir à descoberta desta mulher, que escreveu tanto, que seria fastidioso enumerar todas as suas obras.

Prova da sua vitalidade é o facto de continuar a escrever, tendo publicado em 2008 o livro «A Neo-Penélope», de que deixo aqui um poema, cujo tema é muito actual.

Carta de amor informático

Penetraste no meu coração
Como vírus no meu processador
Vindo de lado nenhum
Ofereces-me agora
O vazio da não opção

Estragaste-me o real
Obrigaste-me a reinventá-lo:
Para quê?

Agora estás
No meu cemitério de textos
Já não te posso reencaminhar

Arquivei-te no lixo da memória
Do meu Pentium IV
Que aliás já vendi

Troquei-o por um lap-top
Mais leve
Mais portátil
Mais facilmente descartável.

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