disePor Hugo Pinto de Abreu

Hugo Pinto de Abreu: Mas a pedra de toque dum doutoramento não é sempre o conseguir fazer um contributo relevante e original para a literatura científica? Como é que tu vês este objectivo e o relacionas com o «construir a história» de que me falavas [1]?

Gustavo Martins-Coelho: Precisamente! O contributo original não se pode reduzir a uma pequena descoberta dum pequeno micro-factor qualquer que vai servir para qualquer coisa. Tu tens de conseguir, como eu digo, contar uma história; tu tens de conseguir, mais do que descobrir qualquer coisa, fazer um pequeno contributo. Aliás, um pequeno contributo é o que deveria ser uma tese de licenciatura — as teses que os licenciados têm de fazer, e agora os mestres dos mestrados integrados têm de fazer, no final, para acabarem — isso, sim, deveria ser um pequeno contributo. Deveria ser um texto de cinco mil palavras — um artigo científico, no fundo! — que desse um pequeno contributo e dissesse: «nós descobrimos isto assim, assim». Isso seria uma pequena coisa.

Um doutoramento não é isto, nem pode ser isto! Porque senão, então, uma tese de doutoramento é indistinguível duma tese de licenciatura. Uma tese de doutoramento tem de ser, realmente, uma tese em que tu consigas demonstrar… aliás, tu sabes o significado da palavra «tese»: portanto, tu tens de conseguir demonstrar uma tese, tu tens de fazer uma afirmação e substanciá-la com dados! E esses dados não se conseguem — ou muito dificilmente se conseguem — com a pressão de três anos que tu tens para fazer, porque, repara, eu acho que também depende muito da área científica da qual nós estamos a falar, pois — talvez — na área, por exemplo, da biologia, um tipo que trabalha com moscas, em três anos, tem vinte gerações de moscas. Portanto, ele consegue facilmente fazer vinte artigos em três anos, e conta uma história! E diz: «eu peguei nas moscas, eu reproduzi as moscas, eu consegui isolar um gene nas moscas, eu descobri o que é que este gene faz, eu descobri qual é a proteína que este gene produz, e descobri quais são as funções desta proteína; e descobri o que é que acontece se eu alterar este gene, ou desenvolvi um fármaco que consegue inibir a acção desta proteína e que tem aplicações na medicina, e nisto, naquilo e naqueloutro.» Se calhar, consegue! Agora, quando tu pensas em estudos, particularmente nas ciências sociais e na área da saúde pública — onde eu estou a estudar — quer dizer: eu não consigo desenvolver uma coorte, ou um estudo de coorte, em três anos. Eu preciso de pelo menos cinco, dez anos de seguimento. Eu não consigo descobrir um novo tratamento para o cancro em três anos, porque, por definição, um tratamento para o cancro só é eficaz, ou não — ou só é considerado eficaz, ou não — ao fim de cinco anos. Portanto, nunca um estudante de doutoramento vai produzir qualquer avanço na área do cancro, a não ser que seja na área muito básica, na área de identificar uma nova molécula que poderá ser um potencial alvo terapêutico: aí, sim! E é por isso que eu digo que nós temos de deixar de pensar o doutoramento dentro destas barreiras e começar a pensar o doutoramento como um projecto que vai contar uma história, que vai ter um contributo efectivo, demore o tempo que demorar. E, para mim, esta é a grande questão.

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