Por Satoshi Kanazawa [a]

No meu último artigo [2], apresentei a teoria da «sobrevivência» da Anne Campbell a respeito da criminalidade feminina, a qual afirma, entre outras coisas, que as mulheres roubam menos e menos frequentemente do que os homens, porque elas só roubam o que precisam para sobreviver, enquanto eles roubam, em parte, para mostrar e impressionar as mulheres com os seus maiores recursos. Há uns anos, passou-se uma história comigo, que ilustra perfeitamente este argumento.

Eu mudei-me para a Escola de Economia e Ciência Política de Londres em Julho de 2003. Um mês depois da minha chegada a Londres, alguém entrou no meu novo gabinete e roubou dois cheques em branco, tendo o cuidado de levar dois cheques não consecutivos do meio do meu novo livro de cheques. Quando eu soube, pelo banco, que os dois cheques tinham sido levantados por £ 700 cada, eu suspeitei (ainda que fosse estatisticamente muito improvável) que o ladrão teria sido uma mulher. De acordo com as estatísticas da Interpol, 96 % de todos os ladrões na Inglaterra e no País de Gales, em 1990, eram do sexo masculino, pelo que seria muito improvável que qualquer ladrão em Londres fosse do sexo feminino, estatisticamente.

No entanto, viemos a descobrir que foram duas mulheres que roubaram os meus cheques. Eu soube os seus nomes completos, mais tarde, através do banco, quando elas levantaram os cheques, passando-os em seu nome, usando os seus nomes reais, ilustrando de passagem um outro dado consistente da criminologia: que os criminosos são menos inteligentes do que a população geral [b].

Tendo lido a obra da Anne Campbell antes deste incidente, em 2003, foi imediatamente claro para mim que os ladrões teriam sido mulheres, porque me pareceu que £ 700 era dinheiro para a renda da casa, não o tipo de dinheiro para exibir ou para atrair mulheres. É o tipo de dinheiro de que uma pessoa precisa, não o tipo de dinheiro que quer. Eu senti que um ladrão masculino teria passado um cheque de £ 700.000, em vez de £ 700. Naturalmente, eu não tenho essa quantidade de dinheiro (nem, presumo eu, qualquer dos meus colegas da LSE [3]). No entanto, do ponto de vista do ladrão, se houver pelo menos uma chance de 0,001% de que o banco aceite um cheque desse montante, então compensa-lhe arriscar £ 700.000, em vez de apostar numas seguras £ 700. Dada a muito maior propensão dos homens para a correr riscos, acho que um ladrão do sexo masculino poderia ter tomado essa opção. Tal é o poder da imaginação psicológica evolutiva: ele permite-lhe saber quem poderá ter roubado o seu dinheiro, mesmo antes da polícia.

O trabalho dos psicólogos evolutivos Martin Daly, Margo Wilson e Anne Campbell explica por que os homens são muito mais violentos e criminosos do que as mulheres e por que essa diferença de género é culturalmente universal. Gostaria de salientar, porém, que, de acordo com os dados da Interpol, há uma excepção a essa regra. Uma minoria considerável, ou até mesmo a maioria, dos autores de todos os crimes graves na Síria, ano após ano, são mulheres. Estou francamente perplexo com estes dados estatísticos; no entanto, é muito difícil para mim (ou para qualquer psicólogo evolutivo) acreditar que, no mundo inteiro, apenas as mulheres sírias são genuinamente mais criminosas do que as mulheres de todos os outros lugares.

Eu suspeito fortemente que, ou estas estatísticas reflectem algum erro operacional (por exemplo, «masculino» e «feminino» rotulados erroneamente, quando o formulário da Interpol foi inicialmente traduzido para o Árabe, há muitos anos, e os mesmos formulários rotulados de forma errada são fotocopiados e utilizados a cada ano), ou existem algumas razões culturais, ou institucionais (por exemplo, as mulheres podem assumir rotineiramente a culpa por crimes cometidos pelos seus maridos, irmãos, ou pais). Eu pedi a vários especialistas sírios uma possível explicação, desde que notei, pela primeira vez, a anomalia estatística, em 1997, mas não encontrei uma explicação satisfatória. No entanto, eu estou certo de que as mulheres sírias não cometem a maioria dos crimes graves no seu país. Como Francis Crick, o co-descobridor do ADN e, provavelmente, o maior bioquímico do século XX, sempre dizia:

— Se os factos não se encaixam na teoria, deve primeiro questionar-se os factos.


Notas:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

b: Em sua defesa, no entanto, gostaria de salientar que as ladras foram limitadas pelas loucas leis bancárias do Reino Unido, que não permitem que os indivíduos levantem cheques de todo; todos os cheques pessoais no Reino Unido têm de ser depositados directamente em contas bancárias. Deste modo, elas não poderiam ter convertido os meus cheques directamente em dinheiro (n. do A.).

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