Por Gustavo Martins-Coelho

Hoje, termino esta série de quatro crónicas [1] dedicadas à reportagem da TVI sobre a situação que se vive, diariamente, nos serviços de urgência nacionais [2].

Há três semanas [3], comecei por um aparte, explicando como dizer correctamente «serviço de urgência», usando o singular e não o plural — porque o detalhe também é importante; depois, chamei a atenção para mais um detalhe, também não de somenos: as dificuldades que a gestão dum serviço de urgência coloca, pelas particularidades que tem; e terminei comparando a evolução do número de doentes que são atendidos anualmente nos serviços de urgência com a evolução do número de serviços de urgência em funcionamento, notando que, enquanto o número de doentes não se alterou na última década, o número de serviços de urgência se reduziu consideravelmente. Há duas semanas [4], a crónica foi mais musical e pretendeu, numa divagação a propósito do tema, ilustrar a tendência que temos para errónea e injustamente menosprezar Portugal e os Portugueses, muito habilmente ilustrada pelo verso do Sérgio Godinho: «só neste País é que se diz ‘só neste País’». Finalmente, na semana passada [5], lembrei que a reforma da rede de urgências não aconteceu exactamente como fora planeada; observei que dois em cada cinco doentes atendidos nos serviços de urgência não necessitam realmente de lá ir; e até clamei pela demissão dum secretário de Estado!

Elaboremos, então, sobre a questão: por que motivo dois em cada cinco doentes atendidos em serviços de urgência têm pulseiras verdes ou azuis, que são atribuídas em situações que não necessitam de cuidados urgentes?

Em primeiro lugar, há que dizer que os Portugueses recorrem em demasia aos serviços de urgência: em 2012, tivemos 696 admissões na urgência por mil habitantes, enquanto em Inglaterra (em cujo serviço nacional de saúde se baseou a criação do nosso SNS), nesse mesmo ano, foram atendidos 345 doentes por mil habitantes [6]. A diferença entre os dois números ronda os 40 %… Que, por coincidência — ou não — é também, como disse anteriormente, a percentagem de doentes com pulseira verde e azul em Portugal…

As causas serão várias: por exemplo, um em cada dez Portugueses não tem médico de família a quem recorrer; os que têm não conseguem, frequentemente, marcar uma consulta em tempo útil; a reforma dos cuidados primários ficou a meio, que é o pior que se pode fazer a uma reforma (se não é para levar até ao fim, mais vale não começar); os serviços de urgência estão abertos o dia todo, permitindo a sua utilização de forma a não obrigar a faltar ao trabalho; pode fazer-se exames complementares, sem ser preciso ir ao laboratório mais próximo e voltar uns dias depois ao médico, para os mostrar; etc.

Em suma, o que eu estou a tentar dizer é que a situação que a reportagem da TVI [2] nos mostrou, apesar de ter o seu epicentro nos serviços de urgência, tem causas a montante e a jusante deste, relacionadas com o funcionamento dos outros níveis de cuidados de saúde, nomeadamente os cuidados de saúde primários e os serviços de internamento hospitalar, e com a interacção destes com os serviços de urgência.

Assim, é preciso melhorar a comunicação e a integração entre os serviços de urgência e os cuidados de saúde primários — por exemplo, através do envio automático das notas de alta e do acesso aos resultados de exames complementares, bem como da própria possibilidade de envio de doentes ao hospital para realização de exames requisitados pelo médico de família. É também preciso melhorar a resposta dos cuidados primários às situações agudas, mas não urgentes, permitindo que o doente seja atendido no próprio dia, tão rapidamente quanto possível. Mas é também preciso que o doente chegue aos cuidados primários, em vez de ir directamente à urgência. Para isso, é necessário melhorar o sistema de triagem, nomeadamente pelo telefone, de modo que as situações não urgentes sejam encaminhadas para o centro de saúde e não para o hospital. O envio de doentes pelo médico de família ao serviço de urgência deve ser estruturado em torno de manuais de procedimento desenvolvidos conjuntamente pelo hospital e pelo centro de saúde e adaptados à realidade local.

Por outro lado, na relação entre o serviço de urgência e o internamento hospitalar, é imperioso garantir que nenhum doente permaneça no serviço de urgência mais tempo do que o necessário, por indisponibilidade de camas em internamento.

Anúncios