Por Gustavo Martins-Coelho

Piores do que a chuva [1], são os aguaceiros. Os aguaceiros são a forma que a chuva encontrou para, aleivosamente, molhar as pessoas previdentes.

Mas não podemos culpar exclusivamente a chuva. Antigamente, chovia. Só. A chuva era um ente fiável, que molhava quem tinha de molhar. Mas nós traímo-la e inventámos o guarda-chuva. Por conseguinte, a culpa é nossa: quem semeia ventos colhe tempestades. Traímos a chuva e ela devolveu-nos essa traição.

Depois que inventámos o guarda-chuva, a chuva percebeu que, se continuasse a chover barra-limpa como até então, jamais conseguiria tornar a molhar-nos, visto que todas as cabeças passaram a cobrir-se. É certo que lhe restava a morrinha, que é capaz de molhar, mesmo por baixo do guarda-chuva, e podia sempre contar com o auxílio do vento, que aprecia, entre outras tropelias, tais como roubar chapéus a navegantes incautos, fazer chover na horizontal, o que invalida em grande parte a acção do guarda-chuva. Mas não era a mesma coisa. Então, a chuva decidiu introduzir o aguaceiro no mercado. O aguaceiro foi desenhado para fazer crer a uma pessoa que não há chuva e que pode sair de casa sem guarda-chuva, apenas para ser enxaguada à falsa fé, a meio do caminho.

A chuva encontrou aliados, entre nós: os meteorologistas. Em todos os grupos, há infiéis. A Arca de Noé quase naufragou durante o Dilúvio, por causa do casal de pica-paus. Os meteorologistas são o nosso pica-pau climático. E linguístico. O nome da profissão é uma forma de ludibriar quem tenta pronunciá-lo.

Quando um meteorologista fala em aguaceiros, o que ele quer dizer é que vai começar a chover no momento em que saio de casa (ou donde quer que esteja) e parar quando chegar ao meu destino (excepto, claro, se o destino for a praia, ou qualquer outro que implique permanecer ao ar livre). Ou pior, como sucedeu certo dia: vou de bicicleta, sem chuva, deixo a bicicleta estacionada, bem amarrada a um candeeiro, na rua, e, enquanto estou a confraternizar com as pernas debaixo da mesa e a cabeça debaixo dum tecto, a chuva encarrega-se de aguaceirar a bicicleta, de modo que, quando pretendo regressar a casa, após a alegre confraternização, o selim velocipédico, que tem vocação de esponja em todas as alturas do dia e da noite, excepto naquelas em que tal textura poderia servir para amortecer o efeito da irregularidade do piso no rabo de quem nele se senta, encarrega-se de molhar o dito e o percutir em partes iguais.

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