Por Gustavo Martins-Coelho [a]

Conclui-se hoje a análise da evolução do serviço de passageiros na rede ferroviária portuguesa, linha a linha, entre 2009 e 2013 [11].

Suburbanos de Sintra

Apesar da quadruplicação da linha de Sintra entre Lisboa e o Cacém em 2011, a oferta diminuiu entre 2009 e 2013: o número de comboios diários baixou de 306 para 296. Comparativamente com 2009, os comboios passaram a começar a circular mais tarde e acabar mais cedo. O último comboio sai agora de Lisboa à 1h08. Há menos de trinta anos, saía às 2h40. A frequência também diminuiu. Não houve qualquer alteração relevante nos tempos de percurso.

Suburbanos de Cascais

Existe um projecto de modernização adjudicado desde 2009, mas, até 2013, as obras não arrancaram. Em 2009, havia 268 comboios por dia em circulação; em 2013, são 251 (menos 17) — a que acresceu a diminuição do número de carruagens em grande parte das composições. Foram suprimidos todos os comboios semi-rápidos, conduzindo a uma redução da frequência nas horas de ponta; a um aumento dos tempos de viagem entre algumas estações; a que os comboios rápidos tenham passado a fazer paragens adicionais; e à necessidade de transbordo em trajectos onde tal não acontecia. As tarifas sofreram um grande aumento.

Outras ligações

Nesta parte, olhamos para a evolução registada nalgumas ligações ferroviárias, entre 2009 e 2013, comparando o tempo de viagem mais curto:

  • Em 2009, viajar de Braga a Viana do Castelo (58 km) demorava, na melhor das hipóteses, 1h04; em 2013, é possível fazer o mesmo trajecto em 57 minutos por € 18,70 ou em 1h09 por € 5,90.

  • Em 2009, a viagem mais rápida de Lagos a Lisboa (328 km) demorava 3h53; em 2013, a viagem demora 3h50. Há trinta anos, sem modernização, electrificação, variante de Alcácer do Sal nem travessia ferroviária do Tejo, demorava-se apenas mais 45 minutos. De autocarro, demora-se 3h30 e poupam-se sete euros.

  • Em 2009, a viagem de comboio mais rápida de Guarda a Castelo Branco (118 km) demorava 2h15; em 2013, a viagem mais rápida entre as duas cidades demora 6h40. Esta evolução explica-se pelo encerramento do troço Covilhã–Guarda da Linha da Beira Baixa. O comboio deixou, evidentemente, de ser uma opção de deslocação entre aquelas duas cidades da Beira Interior, e todas as deslocações fazem-se agora por estrada.

  • A viagem mais rápida de Coimbra a Tomar (142 km) demorava 1h16 em 2009; em 2013, o melhor tempo de percurso é 1h48.

  • Do Porto a Leiria, a viagem de 200 km demorava, na melhor das hipóteses, 2h29 em 2009; em 2013, a viagem mais rápida demora 2h38. A viagem custa, no total, € 24,35. De autocarro, é possível fazer a viagem em 2h20 e por € 14,70.

  • A viagem mais rápida de Coimbra a Viana do Castelo (200 km) demora, em 2013, o mesmo do que em 2009: 2h32.

  • A viagem mais rápida de Setúbal ao Porto (392 km) demora, em 2013, 3h55, menos 1 minuto do que em 2009.

  • De Lisboa à Figueira da Foz, demorava-se 2h04 em 2009; em 2013, a viagem mais rápida de Lisboa para a Figueira demora 2h22. De autocarro, o mesmo trajecto é feito, na melhor das hipóteses, em 2h30, por menos cinco euros.

  • Em 2009, a viagem mais rápida de Évora a Setúbal (116 km) demorava 1h47; em 2013, a viagem mais rápida entre as duas cidades demora 1h23.

  • Em 2009, era possível viajar de Setúbal a Faro (259 km) em 2h37; em 2013, a viagem mais rápida entre as duas cidades demora 2h35, após a inauguração da variante de Alcácer do Sal.

  • De Faro a Beja (186 km), a viagem mais rápida demorava, em 2009, 2h50; em 2013, a viagem mais rápida entre as duas cidades demora 4h10, com um custo total de € 32,40. De autocarro, é possível fazer a mesma viagem em 2h40 e por € 13,80. O comboio deixou, em suma, de ser uma opção de deslocação entre aquelas duas cidades do Sul do País.

Indicadores gerais da evolução entre 2009 e 2013

Foram modernizados ou electrificados 120 km de linha, mas há menos 566 km de linha com serviço de passageiros. Foram eliminadas ligações na rede: cortaram-se as ligações entre a Linha do Oeste e a Linha do Norte (via Pampilhosa); entre a Linha da Beira Baixa e a Linha da Beira Alta; entre a Linha do Alentejo e a Linha do Sul (via Funcheira); e entre a Linha do Douro e a Linha do Tua. Deixaram de circular mais de duzentos comboios por dia (sessenta mil por ano), considerando só o número de comboios que circulavam nos dias úteis em 2009 (a quebra real é maior: em 2013, também circulam menos comboios aos fins-de-semana e feriados); fora do serviço urbano, um em cada quatro comboios diários deixou de circular entre 2009 e 2013.

Em 2008, a CP transportou 136 milhões de passageiros. Em 2012, o número de passageiros transportados foi apenas de 112 milhões. Em quatro anos, a CP perdeu 23,8 milhões de passageiros por ano. O serviço regional perdeu 25 % dos passageiros nos últimos quatro anos. De 1988 para 2012, a CP perdeu mais de metade dos passageiros (de 231 milhões para 112 milhões). Nos tempos mais recentes, a CP tem apontado a crise como a principal causa da diminuição da procura, mas a verdade é que o número de passageiros da CP vem descendo desde 1989 e também decresceu de forma considerável nos anos de prosperidade económica.


Nota:

a: O artigo original pode ser lido no blogue «A nossa terrinha» [1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10].

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