Por Gustavo Martins-Coelho

Esta é a minha 52.ª crónica sobre perspectivas em saúde, difundida no «Consultório» da Rádio Voz da Ria [1], o que significa que se completa um ano sobre o início desta minha colaboração radiofónica. Desde o início, tive a preocupação de que este não fosse mais um espaço de «bons conselhos», porque já existe bastante oferta, nesse campo, entre programas da manhã e da tarde das várias televisões e também das rádios, revistas, folhetos, etc.

Portanto, comecei, como sempre se começa: apresentando-me. Expliquei, tanto quanto possível, o que é a especialidade médica de saúde pública e para que serve; e, em particular, distingui-a da medicina geral e familiar, outra especialidade médica que, em muitos aspectos, se cruza com a saúde pública, mas que não é, de todo, a mesma coisa [2]. Definida a especialidade, descrevi as funções do médico de saúde pública, com base no pacote esquema publicado pelos Centros para o Controlo e Prevenção de Doenças norte-americanos [3, 4]: observação, diagnóstico, educação, mobilização, planeamento, autoridade de saúde, apoio social, formação, consultoria e investigação.

Entrei, então, numa série de crónicas dedicadas à Europa [5]: abordei o papel dos tratados e da jurisprudência europeus no domínio da saúde pública e individual dos cidadãos dos seus Estados-membros. Foram quatro semanas dedicadas à harmonização legislativa em matéria de saúde; à prevenção; ao sangue; aos tecidos, às células e aos órgãos humanos; às drogas; ao controlo de doenças transmissíveis; ao tabaco; à segurança dos doentes, à sua mobilidade transfronteiriça, bem como à dos profissionais; à investigação e o desenvolvimento, ao fabrico, à venda, à vigilância, ao preço e à propriedade intelectual dos medicamentos; aos dispositivos de uso médico; à protecção de dados; aos seguros; à concorrência entre os serviços de saúde; à segurança veterinária e fitossanitária; e à segurança dos consumidores.

Chegado o Verão, falei dos riscos do calor [6] e de como se proteger deles [7]. Meses mais tarde, no Inverno, fiz o oposto: elenquei os riscos do frio [8] e observei como fazer para estar protegido [9].

Mas, entretanto, fiz greve, à semelhança de muitos colegas. Nesse dia, expliquei os motivos da greve [10]. Quando, cerca de quatro meses depois, os enfermeiros também fizeram greve, pedi a um que explicasse, neste espaço [11], os seus motivos [12]. Não era meu objectivo, em qualquer das ocasiões, angariar apoio, na audiência, para a greve. Como dizia o Daniel Oliveira, a propósito da greve dos professores [13], uma greve é egoísta, embora possa, por vezes, ir ao encontro da defesa doutros valores, quando a dignificação dos profissionais contribui para a melhoria das funções sociais do Estado. Era o caso, tanto na greve dos médicos, como na dos enfermeiros, mas podia não ser — e eu teria aqui [11] exposto os argumentos dos profissionais, de igual forma. A explicação para isto dei-a numa outra crónica, em meados de Agosto [14]: o meu objectivo nunca é impor minha opinião, ou os meus valores, mas somente equipar cada um, de modo a poder formar a sua própria opinião e entender os seus próprios valores, na posse de toda a informação relevante para tal e sem cortinas de fumo.

Depois da greve, as férias! Falei do cartão europeu de seguro de doença [15], um elemento indispensável a todos aqueles que pretendem viajar pelo espaço europeu e estar protegidos, em caso de emergência médica; apresentei alguns cuidados a ter, na realização de piqueniques [16]; e falei do Programa Nacional de Vigilância Sanitária de Zonas Balneares [17], para que todos possam desfrutar da sua experiência na praia tranquilamente.

Parei, por momentos, para defender a minha dama e explicar por que é importante falar de saúde pública, dando como exemplo a quantidade de vidas que se salvaram, graças ao saneamento básico [18].

Expliquei, então, o princípio de funcionamento do sistema de triagem de Manchester [19] e voltei à água, desta feita à destinada ao consumo humano [20] e à sua vigilância sanitária [21].

Chegou, então, o aniversário do Serviço Nacional de Saúde [22], a propósito do qual expliquei o modo como são financiados os cuidados de saúde, em Portugal: o Serviço Nacional de Saúde é um seguro público de saúde, de cariz redistributivo [23]. A Fundação Gulbenkian [24] aproveitou o aniversário do Serviço Nacional de Saúde para produzir um documento de reflexão sobre o futuro do mesmo, o qual comentei [25], destacando a mensagem de que todos temos um papel a desempenhar.

Por esta altura, o País inteiro falava de ébola. Eu achei por bem explicar também o que é, como se transmite e como prevenir a infecção [26].

Em Outubro, a propósito do Dia Internacional para a Redução das Catástrofes, recapitulei as formas de minimizar o risco sismíco e o que fazer quando a terra treme [27]. Uma semana depois, outro dia mundial; o da osteoporose: tive comigo uma médica interna de Reumatologia do Hospital de Aveiro, que nos deu uma visão geral da doença, das suas causas, da sua prevenção e do seu tratamento [28].

No final do mês, introduzi o tema da obesidade [29]: o peso da doença, a responsabilidade individual, a responsabilidade colectiva e duas soluções: alimentação e actividade física.

No final de Novembro, ocorreu, na zona de Lisboa, um surto de doença do legionário. Em duas crónicas [30], expliquei o que é a doença e como preveni-la, tendo cuidado com a água quente e o seu vapor. Pelo meio, ainda lavei a alma, relativamente aos estreitos passeios de Estarreja e das localidades portuguesas, em geral, e aos efeitos nefastos que isso tem na saúde das pessoas, atirando os cidadãos mais vulneráveis — as crianças em carrinhos de bebé e as pessoas que se deslocam em cadeiras de rodas — para a faixa de rodagem, aumentando o risco de serem atropelados por um automobilista, que não conta com a sua presença nesse espaço. [31].

Com a entrada do Inverno, falou-se dalguma fruta da época: as constipações, que são causadas por vírus e não pelo frio [32], e da depressão sazonal [33], mas não quis terminar o ano, sem assinalar os 25 anos da descoberta do vírus da hepatite C, precisamente no ano em que decorreu toda a polémica em torno do preço dos medicamentos que curam a doença [34]. A verdade é que, conforme disse na altura, se for realizado um rastreio universal e todos os doentes receberem tratamento, em pouco mais de vinte anos é possível incluir a hepatite C na lista das doenças raras, ou seja, doenças que afectam menos de uma em cada 2.000 pessoas [35].

Comecei este ano de 2015 a falar de tabaco: o inimigo público número um: matou cem milhões de pessoas, no século XX [36]. Os meses de Fevereiro e de Março foram ocupados com a questão da confidencialidade, na relação entre o médico e o seu doente [37]: o que é, quem está obrigado a ela, o que está abrangido e em que situações pode ser quebrada. De seguida, numa nova série de quatro crónicas, entre Março e Abril, abordei o atraso no médico: as suas causas [38, 39], as soluções possíveis [40] e pequenas coisas que podemos fazer, individualmente, para minimizar os atrasos no médico [41]. Finalmente, as quatro últimas crónicas foram dedicadas ao problema das urgências, na sequência da reportagem da TVI, recentemente difundida [42]. Relembro a conclusão final: o caos nos serviços de urgência tem causas a montante e a jusante deste, relacionadas com o funcionamento dos outros níveis de cuidados de saúde, nomeadamente os cuidados de saúde primários e os serviços de internamento hospitalar, e com a interacção destes com os serviços de urgência. Assim, a solução reside na melhoria dessoutros serviços e não nos serviços de urgência em si.

Quem desejar voltar a ver qualquer um destes tópicos pode ler todas as crónicas, publicadas no meu blogue, a «Rua da Constituição» [43], na secção «Consultório da Ria» [44]. As crónicas do Carlos Lima e do Hugo Pinto de Abreu também podem ser lidas no mesmo espaço.

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