Por Satoshi Kanazawa [a]

Num artigo pregresso [2], eu expliquei que, independentemente do que eles fazem, quer sejam génios, quer sejam criminosos, a produtividade dos homens tem um perfil etário idêntico. Atinge rapidamente o pico entre o final da adolescência e o início da idade adulta e depois declina de forma igualmente rápida ao longo da vida adulta. O que explica este perfil etário comum?

Uma única teoria da psicologia evolutiva pode ser capaz de explicar a produtividade tanto dos génios criativos como dos criminosos, ao longo da vida. De acordo com esta teoria, tanto o crime como a genialidade são expressões do desejo competitivo dos homens jovens, cuja função derradeira, no ambiente ancestral, teria sido aumentar o seu sucesso reprodutivo.

Como eu expliquei num artigo anterior [3], há benefícios reprodutivos na intensa competitividade para os homens. Na competição física por parceiras, aqueles que são competitivos podem agir violentamente contra os seus rivais masculinos. A sua violência serve a dupla função de proteger o seu estatuto e a honra e de desencorajar ou eliminar por completo os seus rivais. A sua competitividade também os leva a acumular recursos, para atrair parceiras, roubando-os aos outros; e o mesmo mecanismo psicológico, provavelmente, pode levar os homens que não obtêm acesso legítimo às mulheres a fazê-lo de forma ilegítima, através da violação. Os homens menos inclinados para a criminalidade e a violência podem expressar a sua competitividade através das suas actividades criativas, a fim de atrair parceiras.

A concorrência não traz benefícios reprodutivos antes da puberdade, porque os machos pré-púberes não são capazes de traduzir a sua vantagem competitiva em sucesso reprodutivo. Com a puberdade, no entanto, os benefícios da concorrência aumentam rapidamente. Assim que os homens se tornam capazes de se reproduzir, qualquer acto de competição (seja através da violência, do roubo ou do génio criativo) pode, potencialmente, aumentar o seu sucesso reprodutivo. Os benefícios da competição permanecem elevados após a puberdade, durante o resto da vida, porque os machos humanos são capazes de se reproduzir durante a maioria das suas vidas adultas.

A história não fica por aqui, no entanto. Existem também custos associados à competição. Os actos de violência podem facilmente resultar em morte ou ferimento do próprio e os actos de apropriação de recursos podem desencadear retaliações dos legítimos proprietários dos mesmos. O sucesso reprodutivo dum homem fica obviamente comprometido, se os actos de competição resultarem na sua morte ou mesmo simplesmente em ferimentos. Antes dos homens começarem a reproduzir-se (antes do seu primeiro filho), são poucos os custos da competição. É verdade, ser competitivo pode resultar na sua morte ou em lesões, pelo que eles podem perder no jogo reprodutivo, se forem demasiado competitivos. No entanto, eles também perdem por não competir. Conforme expliquei anteriormente [3], se os homens não competirem por parceiras, numa sociedade polígama, como todas as sociedades humanas são [4], ficarão fora do jogo e acabarão perdendo, por consequência. Por outras palavras, os homens jovens podem perder, se forem competitivos, mas, dada a existência de poligamia, eles definitivamente perderão, se não competirem. Portanto, o custo de ser competitivo é pequeno, mesmo correndo o risco de morte ou lesão; a alternativa — perder totalmente no jogo reprodutivo — é pior em termos reprodutivos (o que, mais uma vez, é a razão pela qual a pena de morte é pouco dissuasora dos homens jovens).

O custo da competição, contudo, aumenta drasticamente com o nascimento da primeira criança e das seguintes. É verdade que os homens podem ainda beneficiar da competição, se a mesma lhes permitir atrair parceiras adicionais, mesmo após a sua reprodução inicial. No entanto, a energia e os recursos dum homem são mais bem aproveitados ao proteger e investir nos seus filhos já nascidos. Por outras palavras, com o nascimento dos filhos, os homens devem mudar o seu esforço reprodutivo do acasalamento para a paternidade. Se um homem morre ou fica ferido na sequência dos seus actos de competição, os seus filhos sofrem as consequências: eles podem morrer de fome, sem o investimento paterno, ou ser caçados por outros, sem a protecção do pai. Os custos da competição, por conseguinte, aumentam rapidamente após o nascimento do primeiro filho, o que geralmente acontece vários anos depois da puberdade, porque os homens precisam dalgum tempo para acumular recursos suficientes e alcançar o estatuto suficiente para atrair a sua primeira parceira. No entanto, na ausência de contracepção artificial, a reprodução provavelmente começava numa idade muito mais precoce no ambiente ancestral do que hoje em dia. Existe pois um intervalo de vários anos entre o rápido aumento nos benefícios da competição e do igualmente rápido aumento dos seus custos.

Tanto a curva da idade-crime como a curva da idade-génio podem ser explicadas pela diferença matemática entre os benefícios e os custos da competição. Os homens jovens tornam-se rapidamente mais violentos, mais propensos ao crime, e mais expressivos do ponto de vista criativo no final da adolescência e no início da idade adulta, quando os benefícios da competição aumentam, mas, de seguida, a sua produtividade declina tão rapidamente como subiu, na idade adulta, à medida que os custos da competição aumenta e anulam os benefícios. A criminalidade, a genialidade e a produtividade em praticamente tudo o resto que os homens fazem variam da forma observada, ao longo da vida, porque representam a diferença entre os benefícios e os custos da competição.

Estes cálculos foram realizados pela selecção natural e sexual, por assim dizer, que então equipa os cérebros masculinos com um mecanismo psicológico que os torna cada vez mais competitivos logo após a puberdade e menos competitivos a seguir ao nascimento do primeiro filho. Os próprios homens não fazer necessariamente estes cálculos de forma consciente. Simplesmente, não lhes apetece ser violentos, roubar, ou levar a cabo experiências científicas adicionais, ou querem acalmar após o nascimento do filho, mas não sabem porquê. A sugestão intrigante aqui é que um único mecanismo psicológico pode ser responsável por muito do que os homens fazem, sejam eles criminosos ou cientistas.

Agora, dado que a sociedade humana sempre foi levemente polígama, sempre houve muitos homens que não conseguiram obter sucesso reprodutivo. Estes homens tinham tudo a ganhar e nada a perder por se manterem competitivo e violentos durante a vida inteira. No entanto, nós não descendemos desses homens.

Por definição, todos somos descendentes de homens (e mulheres) que alcançaram algum sucesso reprodutivo. Nenhum de nós descende de falhados reprodutivos, que não deixaram descendentes. E nós descendemos desproporcionalmente daqueles que alcançaram grande sucesso reprodutivo. Doze crianças são portadoras dos genes dum homem que teve doze filhos, mas apenas um filho carrega os genes dum homem que teve apenas um filho. E, claro, nenhuma criança tem os genes dum homem que não teve filhos. Os homens contemporâneos não herdaram os mecanismos psicológicos dos homens sem filhos, que os forçavam a manter-se competitivos e a continuar a tentar obter parceiras ao longo de toda a vida. Todos nós agimos como se tivéssemos filhos na hora em que atingimos a idade adulta, independentemente disso ser verdade ou não, porque somos descendentes e herdamos os mecanismos psicológicos dos nossos antepassados ​​que tiveram filhos nessa altura.


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

Anúncios