Por Gustavo Martins-Coelho

Quando um meteorologista anuncia aguaceiros, não adianta levar o guarda-chuva: vai chover-me em cima durante todo o caminho, excepto se levar um guarda-chuva comigo. Aí, é certo deparar-me com o dia mais soalheiro que imaginar se possa — tanto, que até vou deixar o guarda-chuva esquecido, algures, para descobrir que o perdi, quando me chover novamente em cima o primeiro aguaceiro do dia (agora, que já não tenho guarda-chuva, é certo e sabido que haverá um aguaceiro a escorrer sobre mim).

Numa única frase, sofro duas irritações linguísticas.

Pessoas que dizem «solarengo», para se referirem a um dia de sol. «Solarengo» é relativo ao solar: o senhor do solar, ou o serviçal ou lavrador que vivia no solar. O solar é uma casa senhorial, que até pode apanhar muito sol, se ficar virada a Sul, mas «solarengo» não é um dia de sol.

Pessoas que dizem «chapéu-de-chuva». Um chapéu usa-se na cabeça. O guarda-chuva não se põe na cabeça; protege-a, mas à distância.

Qualquer acordo ortográfico é inútil, enquanto a Língua for tratada a pontapé. Quem não sabe falar Português à antiga, também não perceberá a modernidade a chegar sem cês mudos.

Nem vale a pena mencionar que o ténis é um desporto — e não uma peça de calçado —, pelo que regresso ao aguaceiro. Na verdade, este subterfúgio da chuva serve um duplo propósito: além de ser a sua vingança pela invenção do guarda-chuva, é também o melhor amigo dos fabricantes de guarda-chuvas. Sempre que há um aguaceiro, há mulherzinhas a vender guarda-chuvas à porta de tudo quanto é sítio, a cinco euros. Devem durar até ao aguaceiro seguinte.

Sucesso não é ganhar muito dinheiro — que o digam todos os milionários e banqueiros arruinados. Sucesso é não perder mais do que um guarda-chuva por ano, por causa dos aguaceiros.

Anúncios