Por Alice Santos

Junho é o mês em que os santos populares se festejam. São inúmeras as cidades onde, em cada bairro, o cheiro a sardinha assada se mistura com a fragrância do manjerico ao luar; onde o balão, que no Porto arde enquanto sobe ao céu para ver os foliões e em Lisboa faz parte dos arquinhos das marchas que descem a avenida, o bailarico e a quadra popular são reis. Santo António, São João e São Pedro deram origem a belíssimas marchas, cantadas por vozes fabulosas do panorama musical, de que apenas destaco Amália Rodrigues, Lenita Gentil, Maria Valério, mas muitas outras poderia mencionar.

Desconhecendo eu um poeta que se tenha destacado nestas lides, embora conheça inúmeras marchas populares e outros tantos autores das respectivas letras, opto por vos trazer um poeta popular, já que de cultura popular se trata.

António Fernandes Aleixo, que ficou conhecido pelas suas quadras tão ao gosto do povo, nasceu em Vila Real de Santo António no dia 18 de Fevereiro de 1899 e faleceu, de tuberculose, a 16 de Novembro de 1949, em Loulé, no Algarve.

A sua origem pobre, a pouca instrução, a vida dura de emigrante em França, onde exerceu a profissão de servente de pedreiro, e a doença, quase sempre constante no seu dia-a-dia, não o tornaram um homem indiferente ao que o rodeava. Em vez disso, dotaram-no duma consciência social fora do comum, para um autodidacta e semi-analfabeto.

Como ele mesmo dizia, os seus versos «são filhos da mágoa», mas foi essa vida de dor constante, aliada à sua perspicaz observação, que originaram as mais belas quadras populares que ainda hoje se ouvem.

Foi sempre um homem humilde e, talvez por isso, dizia: «Julgam-me mui sabedor/E é tão grande o meu saber/Que desconheço o valor/Das quadras que sei fazer!» e: «Peço às altas competências/Perdão, porque mal sei ler,/P’ra aquelas deficiências/Que os meus versos possam ter.»

Ao regressar a Portugal, fixou residência em Loulé e passou a vender cautelas e a cantar o que escrevia nas feiras. Foi, aliás, por isso, que foi apelidado de poeta-cauteleiro.

Um dia, escreveu sobre as suas próprias quadras: «A quadra tem pouco espaço/Mas eu fico satisfeito/Quando numa quadra faço/Alguma coisa com jeito.» Dizia Aleixo que: «Nos versos que se improvisem,/Os poetas sabem ler,/Para além do que eles dizem,/Tudo o que querem dizer.»

Voltando à sua capacidade como poeta popular, vemos que, com ironia, assertividade, e uma linguagem simples, mas nada simplista, diz grandes verdades, como nas quadras: «P’ra mentira ser segura/e atingir profundidade,/tem que trazer à mistura/qualquer coisa de verdade» e: «eu não tenho vistas largas,/nem grande sabedoria,/mas dão-me as horas amargas/lições de filosofia». E essas lições podem ser encontradas em «Que importa perder a vida/em luta contra a traição,/se a Razão mesmo vencida,/não deixa de ser Razão?» e «Entre leigos ou letrados,/fala só de vez em quando,/que nós, às vezes, calados,/dizemos mais que falando.»

A sua poesia chegou até nós graças a Joaquim da Rocha Peixoto Magalhães, que começou por recolher todo o manancial, tanto a partir do próprio autor, como de amigos e de conterrâneos. É de notar que foi através da recolha oral que se conseguiu reunir a sua poesia em livros, tais como: «Quando começo a cantar», 1943; «Intencionais», 1945; «Auto da vida e da morte», 1948; «Auto do curandeiro», 1950; «Auto do Ti Jaquim» (incompleto), 1969; «Este livro que vos deixo» (onde é reunida toda a obra conhecida até então), 1969 e «Inéditos», 1979. Como se pode ver, os últimos quatro livros já foram editados após a sua morte.

Hoje, encontramos o seu nome associado a ruas, a escolas, e até existe — felizmente, digo eu — a Fundação António Aleixo, com sede em Loulé e que é considerada de utilidade pública, o que lhe permite atribuir bolsas de estudo aos mais carenciados.

O reconhecimento ao poeta-cauteleiro também é visível noutros países de Língua Portuguesa. Temos, por exemplo, a Escola Poeta António Aleixo, no Liceu Católico de São Paulo, no Brasil.

Não vou alongar-me mais, embora muito mais houvesse para ser dito sobre o nosso nome maior da poesia popular portuguesa. Deixo-vos, sim, com algumas das suas quadras. Reparem que muitas delas parecem ser escritas para o tempo actual. Começo por uma que — aposto — todos conhecem…

Sei que pareço um ladrão…
mas há muitos que eu conheço
que, não parecendo o que são,
são aquilo que eu pareço.

Não sou esperto nem bruto,
nem bem nem mal educado:
sou simplesmente o produto
do meio em que fui criado.

Eu já não sei o que faça
p’ra juntar algum dinheiro;
se se vendesse a desgraça
já hoje eu era banqueiro.

Vemos gente bem vestida,
no aspecto desassombrada;
são tudo ilusões da vida,
tudo é miséria dourada.

Eu não sei porque razão
certos homens, a meu ver,
quanto mais pequenos são
maiores querem parecer.

Uma mosca sem valor
poisa, c’o a mesma alegria,
na careca de um doutor
como em qualquer porcaria.

Quantas sedas aí vão,
quantos colarinhos,
são pedacinhos de pão
roubados aos pobrezinhos!

Há luta por mil doutrinas.
Se querem que o mundo ande,
Façam das mil pequeninas
Uma só doutrina grande.

Embora os meus olhos sejam
Os mais pequenos do mundo,
O que importa é que eles sejam
O que os Homens são no fundo.

À guerra não ligues meia,
porque alguns grandes da terra,
vendo a guerra em terra alheia,
não querem que acabe a guerra.

Julgando um dever cumprir,
Sem descer no meu critério,
— Digo verdades a rir
Aos que me mentem a sério!

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