Por Hugo Pinto de Abreu

Hugo Pinto de Abreu (HPA): Gustavo, neste momento, como já dissemos,  tu és simultaneamente: investigador, aluno doutorando e médico. Portanto, praticas todos os dias — ou quase todos os dias — a medicina. Estes dois mundos — o mundo da academia e o mundo da medicina aplicada, da medicina prática — são dois mundos desencontrados? De que forma é que — em caso afirmativo — tu, um aluno, um médico que ao mesmo tempo é estudante de doutoramento, pode ajudar a reunir esses mundos, se é que estão separados?

Gustavo Martins-Coelho (GMC): São mundos desencontrados. Por dois motivos. Primeiro motivo, porque os médicos interessam-se pouco pela investigação básica, e esquecem-se muitas vezes de que sem investigação básica não há medicina. E, por outro lado, dado que os médicos se desinteressam, neste momento, a investigação básica está ocupada por pessoas que, sendo muito competentes na sua área — e que fique isso claro, não quero menorizar os biólogos, os bioquímicos, os microbiólogos, etc. —, são muito competentes na sua área, mas a sua área não é medicina. E, portanto, é muito difícil para eles conseguirem ter aquela visão que lhes permitiria produzir coisas realmente… com, com um impacto real na medicina. E é por isso existe que neste momento a nova especialidade, que é a investigação de translação, que agora se fala muito, e o objectivo é exactamente esse, é conseguir fazer investigação que se traduza em resultados práticos na área médica.

HPA: A tua presença consegue de alguma forma ajudar a aproximar esses mundos?

GMC: Eu gosto de pensar que sim. Se calhar é um pouco presunção da minha parte, mas eu gosto de pensar que consigo contribuir para essa visão, e que consigo, de alguma maneira, dizer: «Vamos parar para pensar de que forma é que estudarmos esta determinada característica da mosca me vai ajudar quando eu tiver uma pessoa para tratar». Porque eu posso saber tudo sobre as moscas — e eu digo as moscas, porque as moscas são frequentemente usadas como modelos animais em estudos biomédicos —, e portanto, eu posso saber tudo sobre a mosca, e isso não ter relevância nenhuma para tratar seres humanos, e portanto, eu acho que, de alguma maneira, o facto de estar na prática, contribui para conseguir — e eu acho que a questão aqui é esta — fazer as perguntas certas: só podes fazer as perguntas certas se estiveres a observar o mundo certo; se tu não estás a observar o mundo, até podes fazer perguntas, mas dificilmente serão as perguntas certas naquele mundo, naquele contexto.

HPA: Estamos a chegar ao fim do nosso tempo e… eu queria fazer uma última pergunta que deixo muito aberta: Gustavo, quando falamos de Serviço Nacional de Saúde, o que é que te ocorre dizer? O Serviço Nacional de Saúde é, para ti…

GMC: Ah…! O Serviço Nacional de Saúde é, para mim, uma das melhores coisas que nós temos. O facto de eu saber que, aconteça o que acontecer, se eu ficar doente, alguém vai tomar conta de mim, é uma tranquilidade que muitas vezes uma pessoa nem nota, precisamente porque está lá. Mas nós tivemos agora um belo exemplo, um perfeito exemplo do que é que seria de nós se não houvesse Serviço Nacional de Saúde: foi aquela menina que nasceu prematura no Dubai. Agora imagina nós vivermos todos com essa… espada de Dâmocles na cabeça.

HPA: Muito obrigado, Gustavo Martins-Coelho, por esta entrevista e pela disponibilidade.

GMC: Obrigado eu!

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