Por Carlos Lima

Como foi exposto na crónica anterior, a «dor é uma experiência sensorial e emocional desagradável associada a uma lesão tecidular potencial ou real» [1]. Também verificámos que podia ser considerada aguda ou crónica. Hoje, vamos aprofundar um pouco mais estes conceitos, pois a abordagem que se faz numa situação e na outra são diferentes.

Florbela Espanca, num dos seus poemas, diz:

Neste mundo só temos certa a dor e nada mais. [2]

Aceitando esta afirmação, temos claramente de distinguir a dor que funciona como alerta e manifestação de doença e a dor que, por ser tão prolongada no tempo, se assume como doença e que devemos prevenir, controlar ou combater.

Por dor aguda [3], entende-se aquela dor de início recente e espontâneo, bem definida no tempo e com uma causa associada, quer seja doença aguda, traumatismo ou procedimentos médico-cirúrgicos. Esta dor assume um carácter vital, porque nos alerta para o risco que existe por trás dessa dor. É a dor aguda no peito e no braço que nos alerta para os danos causados pela ocorrência do ataque cardíaco. Por uma questão de defesa, ficamos menos activos, salvaguardando a probabilidade de causar mais dano.

Por dor crónica, entende-se aquela dor que persiste para além da cura da lesão que lhe deu origem, sendo a mais famosa, talvez por ser mais frequente, a dor das costas, ou dor lombar. Assim, a dor crónica é prolongada no tempo, sem grande definição na sua origem temporal e causal. Pode apresentar características muito diversas e, hoje em dia, é encarada como uma doença por si, pois é debilitante, causadora de desconforto e de incapacidade para trabalhar, correndo o risco de agravamento progressivo.

Para o marquês de Sade, não há sensação mais intensa e activa do que a dor [4], pelo que a Direcção-Geral da Saúde elaborou o Plano Estratégico Nacional de Prevenção e Controlo da Dor (PENPCDor) [5], segundo o qual:

Todo o indivíduo tem direito ao adequado controlo da dor, qualquer que seja a sua causa, por forma a evitar sofrimento desnecessário e reduzir a morbilidade que lhe está associada.

E acrescenta que:

Todos os profissionais de saúde devem adoptar estratégias de prevenção e controlo da dor dos indivíduos ao seu cuidado…

Este plano tem como principais objectivos: reduzir a prevalência da dor não controlada; melhorar a qualidade de vida dos doentes com dor e controlar os custos associados à dor e sua morbilidade ou co-morbilidade. Para dar sequência aos objectivos propostos, foram criadas as unidades de dor, espalhadas por todo o País.

A consulta da dor é composta por uma equipa multidisciplinar, o que permite trabalhar com a pessoa na sua totalidade, logicamente incluindo a família e a comunidade. Espera-se que estas unidades venham dar razão a Haruki Murakami, quando diz que «a dor é inevitável. O sofrimento é opcional» [6].

Saúde!

Anúncios