Por Carlos Lima

Todas as batalhas são políticas e o futebol é uma batalha. É uma batalha de opiniões (treinadores); é um conjunto de duelos (fintas, cortes, remates e defesas); é uma abordagem e uma disposição estratégicas (táctica); é uma demonstração de habilidades (técnica) e é um caos organizado colectivamente, porque o individual, por vezes, se sobrepõe ao colectivo; e o futebol precisa de desequilíbrios que, regra geral, são feitos pelos jogadores com mais técnica.

A política também assume um conjunto de ideias (partidos), personificadas no líder. Assume duelos (debates), desenvolve-se dentro de determinada estratégia para convencer o eleitorado (campanhas eleitorais), para governar ou para fazer oposição e dum conjunto de habilidades, que passam pelas capacidades individuais de gerir as situações e de passar umas tantas rasteiras aos outros.

Dentro do campo (relvado ou parlamento), os jogos são supostamente arbitrados e as forças tendem para o desequilíbrio ou para a equivalência, com as ideias de fundo subvalorizadas, em função da emotividade do momento.

É exactamente na emotividade que o futebol e a política mais se aproximam, porque os pequenos e os grandes ganhos são entendidos de forma diferente, dependentes das cores e dos ângulos donde que são observados e por quem são observados.

As grandes contendas tendem a ter um só vencedor (dérbis/eleições) e reúnem centenas de opiniões à sua volta, partilhados pelos ditos «fazedores de opinião», que tanto poluem as nossas televisões, rádios e jornais; ou seja, faz-se opinião com a opinião e as habilidades dos outros e ainda se ganha muito dinheiro com isso, sem que essas opiniões acrescentem valor e esclarecimento ao público em geral.

Aparentemente, o futebol e a política são dois mundos efémeros, em que os protagonistas tendem a sair rapidamente de cena (oito a doze anos) — mas nem sempre é essa a realidade, porque há sempre uma maneira de mudar o cenário de fundo e de assumir outras funções.

Na política, tal como no futebol, também há transferências, por mudança de opinião, de prioridades e até por se perspectivarem maiores ganhos. A semana pregressa foi disso exemplo, com um treinador que muda para um clube rival (Jesus) e um político que muda de partido (Capucho), ambos transformando-se em factos nacionais capazes de capturar horários e páginas nobres dos meios de comunicação social.

Por outro lado, a política é uma boa aliada do futebol (e vice-versa): basta olhar para a enormidade que foi a construção dos estádios para o Europeu de 2004 e a associação de figuras do futebol para captar a atenção para os partidos.

Para concluir, sem olhar a cores, se ambos (política e futebol) fossem bem arbitrados pelas entidades reguladoras, talvez pudessem continuar andar de mão dadas sem ter de «levar» nas mãos.

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