Por Carlos Lima

À forma como a dor é gerada, transmitida e interpretada e às respostas que o corpo desenvolve para dela se defender chamamos fisiologia da dor [1].

Sem pretender desenvolver um tratado sobre o assunto, vou tentar simplificar e exemplificar por que razão sentimos dores de tipos diferentes e por que reagimos rapidamente à dor aguda (picada ou queimadura) e tentamos resistir à dor instalada (dor inflamatória, visceral e articular) ou que se vai instalando (dor neuropática).

A percepção da dor inicia-se pela estimulação das terminações nervosas, ou nociceptores [2], que se encontram espalhados por todo o corpo.

Como já vimos antes, existem receptores que detectam a pressão, outros que detectam a temperatura [3] e alguns que conseguem fazer estas duas coisas e detectar ainda a acção de substâncias químicas internas e externas.

Os impulsos nervosos gerados pelos dois primeiros tipos de receptores são conduzidos por fibras nervosas mielinizadas e os impulsos captados pelo último tipo de receptores são conduzidos por fibras nervosas desmielinizadas. Este facto permite que a condução dos impulsos nervosos seja diferente.

A bainha de mielina [4] funciona mais ou menos como o isolamento do fio eléctrico, ou seja, tem um ponto de origem e um ponto de chegada — o fio sem isolamento intercambia energia com o ambiente que o rodeia, o que atrasa a progressão do impulso. Assim, as fibras nervosas mielinizadas são cerca de dez vezes mais rápidas que as não mielinizadas e permitem uma informação muito mais precisa da origem da dor. As fibras desmielinizadas, além de mais lentas, podem receber estímulos ao longo do trajecto, perdendo-se a precisão.

O estímulo doloroso activa os receptores e gera o impulso nervoso, que é conduzido até à medula espinhal e ao cérebro [5]. A dor que se origina nas diferentes partes do corpo é conhecida como dor nociceptiva [6] e pode ser primária (aguda) ou secundária (reacção inflamatória à volta da lesão). Digamos que a dor primária nos obriga a reagir e a dor secundária nos ajuda a resistir. Existe também a dor neuropática [7, 8], que tem a sua origem em alterações do sistema nervoso e à qual dedicarei uma próxima crónica, e ainda a dor recidivante.

Como dizia, os neurónios espalhados pelo corpo conduzem o impulso até à medula espinhal. Aí, dividem-se em dois ramos: um entra na medula espinhal e o outro segue directamente para o tronco cerebral. O ramo que termina na medula espinhal permite a resposta mecânica imediata e involuntária, no chamado arco reflexo [9] aos estímulos dolorosos. É este arco reflexo que nos permite afastar a mão do objecto que está picar ou a queimar-nos, tendo, pois, função de protecção. A outra ramificação segue até ao tronco cerebral e leva a informação até ao cérebro, que nos permite desencadear um conjunto de respostas, como a avaliação da segurança, a resposta inflamatória, o recurso a tratamentos de alívio da dor, entre outros, e também desencadear processos internos de combate à dor, como a libertação dos potentes analgésicos internos.

Os medicamentos destinados ao combate à dor (analgésicos) existentes no mercado têm em conta estes princípios, daí não serem adequados a toda e qualquer situação, mas com indicações e doses terapêuticas específicas.

Saúde!

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