Por Hélder Oliveira Coelho

Diz o povo que a galinha da vizinha… Não preciso de acabar o adágio. Todo o intelectual que se preze tem o seu calcanhar de Aquiles. Eu não seria a excepção. Pois, se qualquer homem de bem, no século XIX, tinha a sua gonorreia de estimação, por que não hei-de eu ter a minha própria maleita?

De Charpentier a Rossini, fica o cunho do gosto popular. Eis que o senhor leitor se indaga: do último se conhecem as bufas, do primeiro não há memória de tais forrobodós. Todavia, é dele o mais conhecido preâmbulo de abertura ao festival da música popular (não, não falo de concertinas ou adufes). A minha obstipação mental cura-se com o Festival da Canção.

Voltando à galinha… Ouvi o testemunho duns australianos, que adoram o festival. Fiquei feliz por saber que não sou o único. Em regra, falo muito mal. Mas, desta vez, vou fazer a minha critica positiva. Quando soube que a Austrália ia participar, o queixo caiu. Esta história da aldeia global começava a ir longe demais. Fixar a Austrália na Europa era coisa que nem aos Americanos mais sui generis haveria de ocorrer. O meu pai, homem pragmático, retorquiu com brevidade com Israel e Rússia como paradigmas da centralidade europeia.

Visto por esse ponto de vista, ele está certo. Afinal, a Austrália terá mais em comum com o meu modus vivendi do que outros que já participavam. As cachopas que referi vibravam com grande euforia pelo espectáculo e mostraram um certo desprezo por quem olhou com espanto tamanha animação.

A velha Europa dos castelos e palácios está certamente muito amofinada de artes circenses sexagenárias. Quem vem dum lugar onde tudo o que respira é venenoso, acredito que possa ficar encantado com as coisas simples da vida. O Festival é um acontecimento para os simples desta vida (atente-se que uso «simples» na medida metafórica exacta da concepção clássica do pobre de espírito).

Então, atentemos. Quarenta países, mais ou menos ocidentalizados, juntam-se para cantar, mais ou menos americanizados. Realça-se que não existem credos ou políticas sobre o palco. Escutou-se música com construção ao gosto rock, hip-hop, puro pop, punk, música de intervenção, um toque erudito, jeitos tradicionais… Em suma, mais ou menos estilizado, escutou-se de tudo. Ganhou um rapaz que faz voluntariado em África, nos tempos livres. A par das tradicionais apresentadoras, contou-se com o mais jovem ícone da luta pelo respeito pela diferença e a aceitação dos outros sem preconceitos. Dizem os locutores que estava cheio de gente jovem. Eu arrisco-me a dizer quase uma parada gay, é certo. Mas, lóbis à parte, temas como o amor, o respeito pelo próximo, a tolerância, o fim da guerra estiveram sobre o palco. Entre as picardias habituais, surge uma ou outra frase demagógica:

— Fazemos pontes através da música.

Pontes entre povos e países. Pontes de entendimento e de tolerância. Pontes que mostram que, apesar de credos e culturas, há conceitos superiores de belo, que nos são transversais. As dores, as angústias, o sofrimento. As alegrias, as ansiedades. Afinal, há muito mais pontes a unir-nos do que rios, mares ou oceanos a separar-nos. É um evento ostensivo, de facto. Não obstante, mais se ostentam os defeitos duma sociedade que se desmorona sem valores ou respeito pelo semelhante. E o papel educativo que todos devemos reclamar, no momento de querer dar um mundo melhor aos nossos filhos?

Talvez sentar de novo as crianças em frente ao televisor, dizer que se vai ouvir música em família. Pode discordar-se, pode não se gostar. De seguida deve falar-se sobre o que não se gostou. E devem falar velhos e novos, pretos e brancos, ricos e pobres, eruditos e simples. Esta riqueza da diferença e da tolerância há-de construir um mundo melhor.

É um festival demagógico. É! Eu sou um demagogo. Sou!

Quero continuar a ser por muito tempo. A cada grito de rebeldia responder com um sorriso. E, quando me chamarem velho dos marretas (coisa que já acontece), então significa que tenho mais cem anos de juventude pela frente. Porque a ironia é o mais belo sintoma da clareza de espírito. Enquanto houver ironia, haverá juventude. Enquanto houver juventude, haverá um mundo pelo qual lutar. Enquanto houver mundo, haverá um herói em cada um dos seus habitantes.

Deixo-vos com a música vencedora do Festival Eurovisão da Canção [1]. We are heroes.

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