Por Satoshi Kanazawa [a]

O meu artigo sobre a ligação entre o crime e a genialidade, que descreve o perfil etário da produtividade científica e o efeito de desistência do casamento sobre a ciência, foi publicado na edição de Agosto de 2003 do Journal of research in personality. Assim que foi publicado, os meios de comunicação divulgaram-no; os primeiros foram o The News Scientist [2] e a Nature science update [3]; depois, o tema espalhou-se rapidamente, acabando por ser destaque em jornais de todos os continentes, excepto a Antárctida.

Como muitas vezes acontece na elaboração de relatórios sobre estudos científicos (meus ou doutros autores), a comunicação social meteu os pés pelas mãos. Aqui está uma amostra das manchetes:

  • Um investigador diz que o casamento arruína uma mente brilhante [4] (Boston Globe, EUA);
  • Casamento e filhos matam a criatividade dos homens [5] (ABC News, Austrália);
  • Cientistas e bandidos, continuem solteiros [6] (The Telegraph, Índia);
  • Sentir-me sensual faz de mim melhor escritor (The Independent, Reino Unido);
  • O casamento não é bom para a ciência nem para o crime [7] (The Telegraph, Reino Unido);
  • O casamento faz mal à criatividade [8] (UPI, EUA).

Se o leitor tiver seguido os meus artigos desta colecção [9], rapidamente perceberá que todas estas manchetes e artigos falham a mensagem fundamental por completo. Os meus achados não significam que «o casamento faz mal à criatividade»; na verdade, é o oposto. Eles mostram que a criatividade faz bem ao casamento. Homens criativos e bem sucedidos casam e podem parar de trabalhar, enquanto os menos talentosos permanecem solteiros e continuam a trabalhar, a fim de atrair parceiras. Da mesma forma, as minhas descobertas não significam que «o casamento não é bom para a ciência nem para o crime»; eles significam que a ciência e o crime, se bem feitos, são bons para o casamento, pois o homem pode, então, encontrar uma mulher que queira casar com ele. E, decerto, eu nunca disse que «sentir-me sensual faz de mim melhor escritor»; um melhor escritor sente-se sensual, porque faz sexo.

Como expliquei no meu último artigo [10], da perspectiva da psicologia evolutiva, o casamento e o sucesso reprodutivo são os objectivos finais e tudo que os homens fazem são meios para esses fins. Todas as manchetes acima assumem que há algo intrinsecamente bom no génio científico e que o casamento e os filhos, dalguma forma, se intrometem no caminho. Nada de bom há no génio científico, excepto como um meio para o sucesso reprodutivo. Mesmo que não estejam conscientes disso, os homens agem sempre com o sexo em vista e a investigação científica não é excepção.


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

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