Por Gustavo Martins-Coelho

Eu farto-me de perder guarda-chuvas; sou um fracassado, portanto [1]. O mais recente que tive durou três semanas e a culpa é dos aguaceiros. Quando chove, saio de casa com um guarda-chuva na mão. Mas pouso-o — no autocarro, no comboio, em qualquer lado por onde passe. Se não estiver a chover quando saio do sítio onde pousei o guarda-chuva, ele fica lá — garantidamente. Mais certo, o sol nascer a Oriente e pôr-se a Ocidente.

Depois de ter perdido o meu último guarda-chuva, andei à chuva até que, agora, tenho um guarda-chuva muito catita. O punho parece o duma espada. Há, no fundo de cada um de nós, uma criança. A minha vem à tona, de cada vez que chove.

Já o perdi uma vez. O habitual. Felizmente, voltei a encontrá-lo. Nem sempre acontece.

Mais tarde, descobri que existia um outro modelo, do mesmo fabricante, que, em vez de espada, era um sabre de luz — estilo «Guerra das estrelas». Fiquei levemente frustrado, mas vejo o lado positivo na diferença de preço entre os dois modelos.

Antes do guarda-chuva que tenho perdido por aí ultimamente, tive outro, presente de aniversário vindo directamente da Holanda; e, antes desse, um outro, que me deu, com muito carinho, a minha mãe. Era igualmente catita, embora não trouxesse a criança à tona: fora o último exemplar da loja, do último modelo fabricado — só lhe faltava falar. Deve ter custado para cima duma pipa de massa (para introduzir algum vocabulário técnico [2] nestes meus devaneios ao Domingo [3]). Durou menos de meio ano. O presente de aniversário — três meses. Não compensa.

Os meus guarda-chuvas, doravante, não podem custar mais de dez euros. Ao ritmo a que os perco, comprá-los a esse preço deve resultar numa despesa anual de cinquenta euros. Affordable.

Por que não temos uma palavra para dizer «affordable», em Português? Acaso seremos mais ricos do que os bretões? Somos um povo com carteira de pobre e gostos de rico. Talvez vivamos, mesmo, acima das nossas possibilidades.

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