Por Gustavo Martins-Coelho [a]

Tira-se um curso de cinco anos numa boa faculdade, onde há alunos brilhantes e excelentes professores. Lêem-se dezenas de livros e de códigos, sobre todas as áreas do Direito da actualidade e do passado, nacional e estrangeiro.

Mas não chega: uma geração tem o azar de entrar no mercado de trabalho no início da crise. Mas a culpa não é só da crise, mas de todo um sistema que está errado, desde o ingresso na faculdade.

Quem quer ser advogado tem de fazer um estágio de três anos, que inclui aulas sobre quase tudo que foi estudado na faculdade, com exames, como se os cinco anos de curso não fossem suficientes. Para se concluir o estágio, há que passar por um novo exame sobre o que se estudou na faculdade e no estágio.

Pelo meio, fazem-se mestrados e pós-graduações, para investir no futuro.

Este estágio serve a muitas sociedades de advogados para, durante três anos, terem trabalhadores a custo zero, com a desculpa de que os estagiários é que têm a sorte de poder trabalhar. É um hábito tão enraizado, que as pessoas até acham normal. Mas não é justo, nem correcto, nem humano. Só que os estagiários acreditam que se trata dum investimento no futuro: é melhor ganhar experiência do que ficar em casa, sentado no sofá.

Depois dos três anos de estágio, o estagiário vai embora, porque não tem lugar — porque o trabalho dele passará a ser feito por um novo estagiário —, ou fica por quinhentos ou setecentos euros mensais, a recibos verdes. Afinal, estudar não compensa. Todo o investimento não deu um único fruto.

Ao contrário doutras profissões, a emigração nem sempre é solução: há limitações de exercício da profissão, que implicam muitas vezes trabalhar numa área para a qual não estudaram nem têm experiência.

Quando tiver filhos, vou dizer-lhes para não cursarem Direito.


Nota:

a: Este artigo é um resumo do texto original, publicado na revista «P3». [1].

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