Por Jarrett Walker [a]

Durante a conferência Thredbo sobre concorrência no transporte colectivo, em Delft, nos Países Baixos, em Setembro de 2009, os vários palestrantes holandeses e os anfitriões holandeses conseguiram manter um rosário contínuo de auto-reprovação nacional. A mensagem era algo do género:

— Nós sabemos que todo o mundo acha que nós somos o que de mais próximo há dum paraíso na Terra do transporte urbano, de modo que o melhor serviço que podemos oferecer é mostrar-vos todas as formas por que mesmo nós podemos fazer asneira.

A conferência começou com uma sessão plenária, por Hugo Priemus da Universidade Técnica de Delft sobre cartelização e fixação de preços no sector da construção civil e obras públicas holandês e terminou com um estudo do sistema de autocarros rápidos Zuidtangent, com especial destaque para o seu elemento mais embaraçoso.

A Zuidtangent (circular Sul) é uma linha circunferencial em torno dos lados Sul e Oeste de Amesterdão (enquanto turista, é provável que lhe dê uso, como ligação directa entre o aeroporto de Schiphol e a bela cidade costeira de Haarlem, a Oeste de Amsterdão). É fundamentalmente uma estrada de dois sentidos à superfície, com viadutos em áreas ambientalmente sensíveis ou em cruzamentos. As estações servir uma série de vilas, incluindo alguns nos principais centros de negócios e um hospital. A densidade em torno das estações é geralmente bastante elevada, embora de forma compacta, com espaço rural aberto entre elas.

Os autocarros são bons, embora não particularmente bons, para os padrões do Norte da Europa.

A linha é sobretudo um corredor bus em via exclusiva, mas há excepções em ambas as extremidades, onde foi necessário penetrar tecido urbano mais antigo, para ligar às estações preexistentes. A construção de túneis teria sido a única alternativa, mas seria muito caro no terreno arenoso e alagadiço da Holanda, especialmente nas ruas estreitas da medieval e renascentista Haarlem.

A característica embaraçosa? Os telhados em forma de onda, caros e arquitectonicamente distintivos, em cada abrigo, muitos dos quais desabaram na primeira tempestade de Inverno a sério. Os telhados tiveram de ser removidos por questões de segurança, mas deixaram as barras metálicas onduladas que os haviam suportado. Estas barras flutuam por cima de cada abrigo como uma centopeia de patas para o ar, enquanto um telhado muito mais simples e funcional foi instalado por baixo.

Eu gosto deles. Suspeito que os braços estão fundidos com a estrutura da estação e seria demasiado caro removê-los, agora que perderam a sua finalidade. Mas também é como se um erro fosse visto como merecedor dum monumento, que é o que estas enormes criaturas distintas são actualmente. Como gesto com significado, parece muito calvinista, mas consciente de si mesmo, como os gestos pós-modernos devem ser.


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

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