Por Gustavo Martins-Coelho

Gustavo: Depois de falarmos do programa nacional para a diabetes [1], do das doenças oncológicas [2] e do da saúde mental [3], esta semana é a vez do Programa Nacional para as Doenças Cérebro-cardiovasculares. Conto, para isso, com a presença do meu colega Luís Fernandes, médico interno de Saúde Pública. Luís, obrigado por teres aceite o convite e deixa-me começar por te pedir que expliques o que engloba este conceito e esta grande palavra: doenças cérebro-cardiovasculares…

Luís: Olá Gustavo! Antes de mais, agradeço o convite para falar um pouco do Programa Nacional das Doenças Cérebro-cardiovasculares. Quando falamos de doenças cérebro-cardiovasculares, falamos de doenças associadas ao sistema circulatório e que podem ter repercussão no coração e no cérebro, sendo as de maior expressão e aquelas que representam um verdadeiro problema de saúde pública o acidente vascular cerebral (AVC) e a doença isquémica do coração. É principalmente nestas doenças que se foca o Programa Nacional das Doenças Cérebro-cardiovasculares.

Gustavo: Disseste que o AVC e a doença cardíaca isquémica são um problema de saúde pública. Queres explicar o que isso quer dizer, exactamente?

Luís: As doenças cérebro-cardiovasculares são a principal causa de morte no nosso País e daí decorre um enorme sofrimento para a população portuguesa, bem como elevados custos para o nosso sistema de saúde.

Gustavo: E em perdas de produtividade, das pessoas que ficam incapacitadas.

Luís: Claramente. Primeiro, pela incapacidade que conferem àqueles que são atingidos por estas doenças e são capazes de sobreviver; e, em segundo, pela perda de vidas em idade activa e que são relevantes para a economia do nosso País. São, sem dúvida, uma prioridade, quando falamos em matérias de saúde.

Gustavo: Tão prioritárias, que o nosso País tem um programa de saúde, a nível nacional, dedicado a combatê-las. Queres, então, falar um pouco da estrutura desse programa? Talvez começarmos pelos objectivos…

Luís: O Programa Nacional das Doenças Cérebro-cardiovasculares pretende não só melhorar o tratamento atempado destas doenças, através do aumento da utilização das vias verdes e da assistência hospitalar, mas também reduzir os factores de risco que se encontram associados ao AVC e à doença isquémica do coração, nomeadamente: tensão arterial elevada, dislipidemia (o colesterol e os triglicerídeos), tabagismo, alimentação inadequada, excesso de peso e obesidade, sedentarismo e diabetes mellitus. A grande maioria destes factores de risco encontra-se igualmente presente noutros programas nacionais; por isso, é natural que surja alguma sobreposição entre os diversos programas e, caso os outros programas sejam cumpridos, mais facilmente atingiremos os objectivos do nosso.

Gustavo: Sim, é verdade. Aliás, neste «Consultório» [4], fala-se muito de alimentação saudável, de actividade física, e há três semanas até esteve cá o Diogo Medina a falar de diabetes! Mas das tais vias verdes que referiste, ainda não falámos. Queres explicar para que servem?

Luís: Uma vez que estas doenças são de início súbito e temos um curto período de tempo para actuar, é necessário transportar as pessoas aos centros hospitalares (especializados) com capacidade de oferecer tratamento o mais rapidamente possível. É igualmente importante, para reduzir o tempo entre o início de AVC ou de enfarte e a prestação de cuidados, que as pessoas reconheçam os sintomas de alarme associados a uma e a outra doença.

Gustavo: Que são…?

Luís: Quando falamos de AVC, há três sinais que nós procuramos. Um primeiro é pedir à pessoa que eleve ambos os braços, para percebermos se há diferenças entre a força dum e do outro, ou se a pessoa consegue elevar ambos de igual forma. Depois, pedimos para a pessoa sorrir, mostrando os dentes, e avaliamos se existem diferenças entre os dois lados da boca. Por último, pedimos a essa pessoa que repita uma frase, para compreendermos se é capaz de dizê-la tal e qual nós a dissemos. A presença de um destes três sinais necessita de avaliação médica urgente, por poder representar o início dum AVC.

Se falarmos de enfarte, os sintomas penso que já são mais conhecidos por todos, e vou destacar o reconhecimento da dor no peito, geralmente muito forte, e que pode irradiar para a região do pescoço e para o braço esquerdo.

Gustavo: Luís, muito obrigado pelo teu contributo para a elucidação do que pode ser feito para prevenir e tratar as doenças cérebro-cardiovasculares.

Luís: Obrigado eu.

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