Por Satoshi Kanazawa [a]

Excluindo um par de comentários inesperados a acontecimentos especiais (o escândalo de Eliot Spitzer [2] e o rompimento de Jimmy Kimmel e Sarah Silverman [3]), publiquei cinquenta artigos nesta coluna [4] e este é o meu 51.º. Acho que está na hora de fazer uma breve pausa para balanço.

Nos últimos cinquenta artigos, falei de tudo, desde o pénis até Deus e tudo o que há no meio. Independentemente do tema específico de cada artigo, o pano de fundo desta coluna tem sido a chamada de atenção para a capacidade da Psicologia Evolutiva de explicar a cognição e o comportamento humanos — o que pensamos, o que sentimos, o que queremos e o que fazemos. O leque de temas abordados nesta coluna reflecte a minha crença, partilhada por todos os psicólogos evolutivos, de que a Psicologia Evolutiva fornece a melhor explicação do comportamento humano — e a explicação última, ao contrário doutras a jusante.

O facto da Psicologia Evolutiva conseguir explicar muito do comportamento humano não significa, contudo, que ela saiba explicar tudo. Ainda. Embora eu não tenha dúvida absolutamente alguma de que a Psicologia Evolutiva (juntamente com Genética Comportamental e as neurociências cognitivas) chegarão a conseguir explicar todas as cognições e todos os comportamentos humanos, o dia em que isso sucederá ainda está muito longe. Ainda há muito que não sabemos.

No entanto, se eu puder ser rumsfeldiano por um momento, não só nós sabemos o que sabemos, mas também sabemos o que não sabemos. Há muito pouco que não sabemos que não sabemos — e ainda menos que não sabemos que sabemos. A ideia importante aqui é que, ao contrário de cientistas sociais, nós sabemos o que não sabemos.

No último capítulo do nosso livro «Why Beautiful People Have More Daughters» [Por que as pessoas bonitas têm mais filhas] [5], intitulado «Stump the evolutionary psychologists: A few tougher questions» [Confunda os psicólogos evolutivos: algumas perguntas mais difíceis] (eu devo o título do capítulo ao meu magnífico editor, Marian Lizzi, da Perigee; a minha ideia original e muito criativa para o título do capítulo era «Conclusão»), discutimos algumas destas questões que permanecem na Psicologia Evolutiva, o que ainda não sabemos, as incógnitas conhecidas. Começamos por revisitar as seis perguntas que o Robert Wright identificou como quebra-cabeças por resolver na Psicologia Evolutiva, no fim de 1994 seu livro «The Moral Animal» [O  animal moral]:

  1. Como explicar a homossexualidade?
  2. Por que são os irmãos tantas vezes tão diferentes um do outro?
  3. Por que optam as pessoas por ter poucos filhos ou nenhum?
  4. Por que cometem as pessoas suicídio?
  5. Por que matam as pessoas os seus próprios filhos?
  6. Por que morrem os soldados pelos seus países?

No nosso livro, consideramos as perguntas 1, 2, e 5 como tendo sido respondidas desde que o Wright compilou a lista em 1994, mas as perguntas 3, 4, e 6, estão ainda longe de ser respondidas. Além disso, nós adicionamos algumas novas perguntas à lista.

  1. Por que gostam os filhos dos pais?
  2. Por que têm os pais dos países industrializados tão poucos filhos?
  3. Por que apreciam as pessoas o bronzeado? Por que monopolizam os homens o controlo remoto da televisão e, normalmente, mudam de canal muito mais do que as mulheres? Por que tomam os homens a seu cargo a maior parte do churrasco e do corte da carne, enquanto as mulheres fazem a maioria dos outros cozinhados?

É importante lembrar que essas são questões não resolvidas pela Psicologia Evolutiva, nada mais. Algumas questões, tais como «Por que gostam os filhos dos pais?», nem sequer são perguntas para outro campo que não o dos psicólogos evolutivos. Obviamente, as crianças gostam dos pais! É natural e faz todo o sentido! Sim, faz todo o sentido para toda gente, excepto para a visão centrada nos genes dos psicólogos evolutivos. De modo a maximizar a sua vantagem selectiva (e o sucesso reprodutivo), os pais têm de gostar dos seus filhos, a fim de motivar o investimento dos pais nos filhos; e, como eu discuti num artigo passado [6], o grau de amor e de investimento dos pais em cada criança é determinado pelo sucesso reprodutivo futuro provável dessa criança — da sua beleza física, da sua inteligência e da sua sociabilidade — e não por quanto a mesma gosta dos pais. Portanto, é absolutamente desnecessário que as crianças gostem dos pais, porque os pais vão gostar deles, mesmo que eles não retribuam esse amor. É, portanto, um mistério o motivo por que os filhos gostam dos pais.

Desde que completei o manuscrito do nosso livro, há alguns anos, eu identifiquei ainda mais enigmas para a Psicologia Evolutiva. Vou discutir alguns nos próximos artigos e vou continuar a adicionar novos itens à lista, à medida que for identificando mais enigmas por resolver, nos próximos meses e anos.


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

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