Por Satoshi Kanazawa [a]

Está descrita uma série de casos em que um homem é condenado ou suspeito de assassinar a mulher ou a namorada, enquanto esta se encontra grávida do seu filho. Os mais célebres desses casos recentes são Scott Peterson, que foi condenado à morte por assassinar a mulher grávida e o feto, e Bobby Cutts Jr., o antigo agente policial condenado por matar a namorada grávida. O cabo da Armada Ceaser Lauren foi acusado de assassinar e queimar o corpo duma colega que o acusara de violação e estaria provavelmente grávida de si. Por que razão estes e outros homens mataram mulheres que estavam grávidas de filhos seus?

Assassinar uma mulher grávida do seu filho é um mistério, na perspectiva da psicologia evolutiva, em quaisquer circunstâncias, porque esses homens têm sempre a opção de abandoná-los. É possível que alguns homens, nalgumas circunstâncias, não sejam capazes de investir nos seus filhos, ou não estejam dispostos a fazê-lo, por várias razões, mas, nesses casos, a acção mais óbvia seria abandoná-los. Não há qualquer razão para os matar. O assassinato de membros do clã sempre foi fortemente condenado ao longo da história evolutiva humana (e provavelmente antes disso). É, portanto, um acto extremo. Então, mais uma vez, por que o fazem estes homens?

Do ponto de vista da psicologia evolutiva, a resposta não poderia ser que estes homens estariam com medo de ser legalmente considerados o pai da criança por um teste de ADN ordenado judicialmente e, por consequência, legalmente obrigados a pagar pensão de alimentos pelo tribunal, com a ameaça de prisão, em caso de incumprimento. No ambiente ancestral, não existiam testes de ADN, processos de paternidade, tribunais criminais nem prisões, pelo que o cérebro dos homens não pode compreender verdadeiramente esses conceitos e, portanto, os homens não agem segundo essas preocupações.

O cérebro humano tem dificuldade em compreender e em lidar com entidades e situações que não existiam no ambiente ancestral, há mais de 10.000 anos. Isto é conhecido como o princípio da savana. Por exemplo, se o cérebro masculino pudesse compreender verdadeiramente os métodos contraceptivos, tais como o preservativo e a pílula, então os homens não ficariam de todo perturbados, por serem vítimas de adultério quando as mulheres tomam a pílula, porque não correriam o risco de ser levados a criar o filho resultante do adultério como sendo seu. Na realidade, porém, não faz praticamente diferença alguma, para um homem, se a sua mulher estava a tomar a pílula ou usou um preservativo quando o traiu. Ele fica extremamente aborrecido, independentemente disso.

Da mesma forma, se o cérebro masculino pudesse compreender verdadeiramente a pílula, não acharia a perspectiva de ter relações sexuais com uma mulher jovem e atraente a tomar a pílula de todo excitante. Na realidade, contudo, não há virtualmente diferença alguma entre a mulher estar a tomar a pílula ou não; os homens acham a perspectiva de ter relações sexuais com ela emocionante de igual forma. Mais: eles não preferem ter relações sexuais com uma mulher menos atraente que não tome a pílula, a ter relações sexuais com uma mulher mais atraente que tome a pílula. Isto sucede, porque a pílula não existia no ambiente ancestral, onde as mulheres mais atraentes sempre foram mais férteis, em média, do que as mulheres menos atraentes.

Da mesma forma, a razão por que os homens matam as suas namoradas e amantes grávidas não pode ser por terem medo de que o nascimento da criança coloque em risco o seu casamento, porque eles têm a opção (exercida por inúmeros homens ao longo do tempo) de abandonar a amante e o filho. Ao longo da história evolutiva, os homens «casados» tiveram frequentemente filhos com outras mulheres e as «esposas», geralmente, não se importavam muito, conquanto os homens não as abandonassem e aos seus filhos. É só quando os homens são tentados a deixar a mulher e os filhos por causa doutra que as mulheres ficam enciumadas.

De facto, eu não consigo pensar numa única razão para que os homens queiram matar mulheres. Esta é uma questão (provavelmente a única questão) sobre a qual eu discordo do meu estimado colega e decano da Psicologia Evolutiva moderna, o David M. Buss, o autor do recente livro «The Murderer Next Door: Why the Mind is Designed to Kill» [O assassino à espreita: por que a mente está desenhada para matar] [2]. Eu concordo com o David Buss quando ele afirma que os seres humanos provavelmente desenvolveram mecanismos psicológicos desenhados, nalgumas circunstâncias, para os levar a matar todos os tipos doutras pessoas. Mas não as mulheres, esposas e namoradas em particular. Eu consigo ver claramente, nalgumas circunstâncias, por que os homens violam mulheres, espancam as suas mulheres ou as abandonam, mas não consigo pensar em quaisquer circunstâncias em que os homens obtenham vantagem biológica em matar as suas mulheres intencionalmente.

Os recursos reprodutivos femininos são os recursos mais valiosos do mundo. Eu acredito que as mulheres — mulheres capazes, do ponto de vista reprodutivo, de ter os filhos dum homem — são simplesmente demasiado valiosas para serem assassinadas e, portanto, é um grande mistério para a psicologia evolutiva (e, devo frisar, apenas para a psicologia evolucionista) por que alguns homens o fazem.


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

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