Por Gustavo Martins-Coelho

Gustavo: Comecei este ano a falar de tabaco [1], mas, na altura, não referi que o problema do tabagismo merece também ele um programa prioritário da Direcção-Geral da Saúde [2]. Entretanto, no final de Maio, tivemos o Dia Mundial sem Tabaco [3], pelo que se torna relevante falar um pouco do Programa Nacional para a Prevenção e Controlo do Tabagismo. Para esse efeito, hoje tenho comigo, à semelhança das semanas anteriores, mais um colega, o Renato Martins, que é médico interno de Saúde Pública na Unidade de Saúde Pública do Agrupamento de Centros de Saúde do Oeste Norte. Renato, obrigado por estares aqui e deixa-me começar por te dar alguns dados, que já referi [1] neste espaço [4]: o tabaco mata — e muito —, mas menos hoje do que no passado; no entanto, quase um quarto dos Portugueses continua a fumar; e um em cada dez fuma passivamente. Estamos perante um problema muito sério…

Renato: Olá Gustavo! Em primeiro lugar, queria agradecer o convite. É para mim um privilégio poder participar neste espaço. De facto, apesar de existir uma tendência progressivamente decrescente na prevalência do tabagismo nos cidadãos portugueses, atendendo aos colossais malefícios associados ao consumo do tabaco e à exposição ao fumo ambiental, isto é, ao fumo passivo, o tabagismo continua a ser um importante problema de Saúde Pública, justificando a criação dum programa nacional dirigido para este problema.

Gustavo: Falaste nos colossais malefícios do tabaco; queres concretizar? Fumar faz mal — de que formas?

Renato: Actualmente, é de senso comum que fumar prejudica a saúde. A maioria dos Portugueses até associa o consumo de tabaco a algumas doenças, como o cancro do pulmão. Contudo, não existe ainda a percepção de que as doenças provocadas ou agravadas pelo tabaco atingem praticamente todo o organismo humano. Relativamente às doenças neoplásicas, para além do cancro da traqueia, dos brônquios e do pulmão, fumar aumenta consideravelmente o risco doutros cancros, tais como orofaringe, laringe, esófago, estômago, fígado, pâncreas, rim, uretra, colo do útero, cólon e recto, entre outros. Para além dos cancros, fumar aumenta o risco de acidente vascular cerebral, doenças que levam à cegueira, cardiopatias, pneumonias, doença pulmonar obstrutiva crónica, outras doenças respiratórias, diabetes, aterosclerose, doença vascular periférica, disfunção eréctil, entre muitas outras patologias.

Gustavo: E depois há, para além disso, o cheiro a tabaco, que eu, pessoalmente, considero abominável…

Renato: Gustavo, tocaste num ponto muito importante: o fumo ambiental do tabaco, vulgarmente conhecido por fumo passivo. Na verdade, mais de 80 % do fumo produzido pelo tabaco é invisível, propagando-se no ambiente sem que ninguém perceba para onde vai. Este fumo contém mais de sete mil produtos químicos, cerca de 250 tóxicos e setenta comprovadamente causadores de cancro — e permanece no ambiente muito tempo depois do cigarro ter sido apagado. Abrir a janela, usar o ar condicionado ou a ventilação não são suficientes para eliminar a exposição ao fumo passivo. Deste modo, num espaço fechado, quando alguém fuma, todos fumam à sua volta, inclusivamente as crianças!

Gustavo: Então, para acabar, queres falar um pouco sobre quais as estratégias adoptadas pela Direcção-Geral da Saúde, através do Programa Nacional para a Prevenção e Controlo do Tabagismo, para combater este flagelo?

Renato: O Programa Nacional para a Prevenção e Controlo do Tabagismo estrutura‐se em função de três eixos estratégicos nucleares — prevenir a iniciação do consumo do tabaco nos jovens, promover e apoiar a cessação tabágica e proteger da exposição ao fumo ambiental; que são complementados por dois eixos de intervenção transversal — informar, alertar e promover um clima social favorável ao não tabagismo e monitorizar, avaliar e promover a formação profissional, a investigação e o conhecimento no domínio da prevenção e controlo do tabagismo.

Gustavo: Estratégias essas que provêm da Organização Mundial de Saúde e são aplicadas em muitos países, para além de Portugal… Seria interessante falarmos sobre isso, um dia destes, mas hoje temos de ficar por aqui; Renato, obrigado, mais uma vez, pela tua disponibilidade para colaborares neste «Consultório…» [4].

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