Por Satoshi Kanazawa [a]

Só porque um acto possa ser atroz, tal não significa que não seja, simultaneamente, a coisa mais humana e compassiva a fazer, dadas as circunstâncias. Às vezes, as alternativas são muito piores.

Após a queda de Oquinava, em Junho de 1945, o governo japonês preparou-se para a invasão terrestre pelas forças aliadas e a batalha final no seu território. Em agosto de 1944, o governo emitira um decreto, classificando oficialmente todos os cidadãos japoneses (os restantes, principalmente mulheres, crianças e idosos, dado que todos os rapazes já tinham sido mobilizados) como combatentes militares e armou a todos com lanças de bambu. Sim, lanças de bambu. Mulheres e crianças armadas com lanças de bambu e treinadas para as usar para lutar contra o inimigo.

As mulheres e as crianças foram mandadas lutar contra as forças terrestres invasoras americanas com suas lanças de bambu até a morte. Foi-lhes dito que a rendição ou a captura pelo inimigo seriam a maior vergonha e que deveriam morrer lutando. A divisa nacional da altura, publicitada pelo governo e espalhada por toda a nação, era «ichioku gyokusai» [cem milhões numa missão suicida em honra do imperador]. Eles estavam absolutamente preparados para morrer lutando contra os soldados norte-americanos, com as suas lanças de bambu.

Imagine-se a invasão do Dia D, na Normandia, mas com os Alemães na praia de Omaha armados apenas com lanças de bambu. Não é difícil imaginar o que teria acontecido. As cenas iniciais de «O resgate do soldado Ryan» teriam sido muito diferentes.

Com a sua decisão de largar duas bombas atómicas sobre Hiroshima e Nagasaki, matando apenas 200.000 pessoas, Harry S. Truman evitou a aniquilação duma nação inteira e salvou a vida de cem milhões de pessoas. O exército japonês tinha tanques e a marinha japonesa tinha aviões, de modo que elas não se deixavam impressionar pelos tanques e pelos aviões norte-americanos. Os repetidos bombardeamentos de Tóquio em Março de 1945 não os assustaram. A única coisa que poderia convencer o povo Japonês e, mais importante, a sua liderança militar, da absoluta superioridade tecnológica americana e da inutilidade completa da resistência foram as bombas atómicas, que eles não tinham.

Eles nunca se teriam rendido, se os Aliados não tivessem lançado as bombas sobre Hiroshima e Nagasaki. Isso teria obrigado à invasão terrestre do Japão pelas forças norte-americanas, o que teria levado à morte de muitos, muitos mais japoneses, até cem milhões. Uma está igualmente morta, independentemente de ter sido por uma bala ou por uma bomba atómica. Cem milhões de pessoas mortas por balas, uma de cada vez, ao longo de semanas e meses, é muito, muito pior, por qualquer bitola, do que 200.000 pessoas mortas num milésimo de segundo por bombas atómicas.

Tudo isso é de senso comum para qualquer pessoa que esteja mesmo remotamente familiarizada com a História japonesa moderna.

Não que a compaixão pelo inimigo em tempos de guerra seja uma coisa boa [2], ou que, mesmo que fosse, os Japoneses necessariamente merecessem a nossa compaixão, dado o grande número de atrocidades cometidas pelo seu exército. Mas, se é compaixão que o leitor quer, não pode conseguir melhor do que salvar a vida de cem milhões de pessoas.


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

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