Por Gustavo Martins-Coelho

O mundo é um festival de estupidez. O Pessoa disse:

A estupidez humana é grande, e a bondade humana não é notável.

A maldade humana é o pior. Quando junta com a intolerância em que o ser humano também é fértil, é um manancial copioso de tudo o que de mais malévolo a humanidade é capaz de engendrar.

Somos naturalmente intolerantes com a diferença. Constato e critico. Mas quem sou eu para criticar? Gosto de pensar que, ao ganhar consciência da estupidez, da intolerância e da maldade humanas, estou um passo à frente de tudo isso; mas, provavelmente, sou tão intolerante, estúpido e maldoso como o mais intolerante, estúpido e maldoso dos seres humanos.

Mas critico. Como todos os seres humanos.

Critico todas as pessoas que se fecham no seu mundinho tacanho, povoado de almas gémeas, ou, pelo menos, irmãs, e que olham para os outros mundos pelo seu telescópio de lentes riscadas e deformadas, onde vêem outras almas, gémeas entre si, mas tão diferentes das do mundo que construíram para si, que lhes parecem completamente estranhas e inertes.

Critico todas as pessoas que imaginam ser o seu mundinho tacanho o único mundo possível e que negam a possibilidade de existência doutras formas de vida, noutros mundos. Se soubessem como estão erradas!… Mas não sabem, porque, quando espreitam, noite após noite, o universo pelas suas lunetas deformadas, apenas vêem formas disformes, que recusam acreditar estarem tão vivas como elas mesmas.

Critico todas as pessoas que, quando confrontadas com a existência de seres doutros mundos, em vez de lhes darem as boas-vindas e lhes perguntarem tudo sobre a sua forma de vida, em vez de tomarem consciência de que, contra tudo o que sempre acreditaram, não são os únicos seres vivos no universo, fecham as portas e erguem muros em torno desses seres que lhes são estranhos, se desinteressam e negam a possibilidade de haver vida — e felicidade — fora do seu mundo.

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