Por Gustavo Martins-Coelho (com TO)

A acabar Quinta-feira, 4 de Agosto de 2005. Desapontados com o Menino Mijão [1], regressámos à Praça Maior — e daí seguimos para a Pequena Rua dos Carniceiros, uma rua ladeada por restaurantes — porta sim, porta sim. Percorremo-la em direcção ao Teatro Real de La Monnaie e prosseguimos até à Praça dos Mártires, que ainda se encontra a ser restaurada, depois de muitos anos ao abandono; mas que, quando recuperar o seu esplendor, será um ponto importante de Bruxelas, a não perder. Dessa praça, voltámos à Pequena Rua dos Carniceiros, onde jantámos num desses muitos restaurantes. O Tê comeu um bife com pimenta verde e o Guê comeu uma pratada de mexilhão com as inevitáveis batatas fritas (uma invenção que os Belgas disputam com os Franceses). Foi um óptimo jantar de despedida de Bruxelas, sendo apenas de assinalar, como aspecto negativo, que pagámos cinco euros por uma garrafa de meio litro de água, o que não deixa de ser escandaloso e um triste reflexo da sociedade em que vivemos.

Na pousada, assistimos a uma das cenas mais hilariantes desta viagem. O nosso quarto tinha quatro camas, pelo que o partilhámos com um francês e um americano. O primeiro a aparecer foi o francês, que, depois dalguma cavaqueira, acabou por nos confessar que detestava Americanos (convém esclarecer que, neste ponto, nenhum de nós sabia, ainda, da existência do americano), enquanto fazia a cama. Entretanto, o francês saiu do quarto e, pouco depois, entrou em cena o americano, que, sem nós pedirmos, desbobinou em três tempos os episódios recentes da sua vida, nomeadamente os seus desgostos amorosos com duas francesas, à conta dos quais não quer ver franceses à frente nos próximos tempos. Aqui temos, pois, o caldo de cultura: o francês que detesta Americanos, porque são burros e arrogantes, e o americano que não quer voltar a ver Franceses à frente, por causa das desilusões que duas francesas lhe causaram. No primeiro acto, o francês fez a cama, como dissemos. Começou, então, o segundo acto, no qual o americano descobriu que o francês fizera a cama com os seus lençóis e o seu cobertor. Acto contínuo, o americano desfez a cama do francês, voltando a colocar a roupa em cima da sua cama, enquanto ia resmungando, abismado, contra o desconhecido que lhe roubara a roupa da cama. Neste momento, saiu de cena (e do quarto) o americano; e o terceiro acto iniciou-se com a reentrada do francês, que ficou visivelmente aborrecido pelo facto de alguém lhe ter desfeito a cama, que lhe dera tanto trabalho a fazer, no chão. Mas o francês era persistente e não permitiu que tal afronta estragasse o seu sono, pelo que voltou a pegar nas trouxas do americano e novamente fez a cama, onde imediatamente se deitou a dormir. Sabemos que isto vai contra as regras do teatro grego, mas a nossa comédia tem quatro actos, e não três, como é habitual. O quarto acto, onde o enredo atingiu o seu auge, consistiu, finalmente, no encontro entre o francês que não gosta de Americanos e o americano que não gosta de Franceses. Ao entrar no quarto, o americano acordou o francês e tirou-lhe o cobertor, levando-o para a sua cama. Descoberto, o francês foi à cama do americano e levou-lhe o lençol que restava. Portanto, o resultado final foi um francês com dois lençóis e um americano com um cobertor. No meio disto tudo, os Portugueses mantiveram-se neutros e sorridentes…

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